Archive for the 'Retratos Sociais' Category

950|Português Suave

POR TODO O LADO popula umas gentes rurais, de traços rudes, vestes escuras, cemblantes carregados, que confunde inconscientemente vidas vazias com vidas simples. A sua modernidade é feita de impulsos forçados pelo exterior, pelos netos, mais do que pela vontade e apelo da novidade. A vida preenche-se nas conversas sobre os que partiram ou sobre os outros que vivem na rua de baixo. Enquanto isso, há uma vida que borbulha nas cidades. Essa não chega às vilas e lugares. Esse país é Portugal.

924|Ofertas Profissionais ou Carreira na Exploração?

RECEBO DA UNIVERSIDADE CATÓLICA, as inúmeras ofertas de estágio. Para quem está na minha situação poderia representar uma mais-valia significativa. Mas não representa. Oportunidades de estágio não-remunerados não são verdadeiras oportunidades, são antes contributos à perpetuação de uma situação de precariedade laboral dos jovens recém-licenciados e das oportunidades de exploração das entidades empregadores, que contratam mão-de-obra qualificada sem ter de reembolsar quaisquer vencimentos. Fazem-no por ciclos, entrando uns saindo outros, garantindo que durante todo o ano haverá sempre um estagiário a ocupar um lugar, e que esse lugar representa um lucro significativo, ao somar resultados sem investimentos. Isto é, na verdade, um dos exemplos que contribuem para a carência anunciada hoje no «Público». Com a abolição da escravatura, o explorado passou a chamar-se «estagiário». No fundo é a mesma coisa sem a violência física, mas com a violência simbólica cristalizada.

912|Precariedade

A UNIÃO EUROPEIA apesar de ser associada à igualização das condições e à democrática qualidade de vida, tem no subsolo da sua vida mediatizada muito trabalho por fazer. A precariedade social é ainda uma realidade, estando associada a situações de baixos salários, baixos índices de escolarização, emprego precário e volatilidade do agregado familiar (Público). Apesar dos inúmeros progressos há ainda uma realidade chamada «trabalho infantil» para combater, embora falemos de números inferiores o pontos do globo como a América Latina. Trata-se de uma realidade associada a países em desenvolvimento na zona euro, extremamente dependente de situações familiares de pobreza e desemprego parental. Para além desta realidade há ainda outra, camuflada pela qualidade obtida no espaço laboral, pela aparência do serviço e pela exigência de escolarização elevada. É a nova precariedade laboral ocidental, feita de recém-licenciados, jovens com pouca experiência profissional e elevada competência académica. São os alvos preferenciais das grandes empresas que contratam mão-de-obra qualificada a baixos salários, criando uma situação de estrangulamento das classes médias e impossibilitando a independência financeira desta classe recém-licenciada que se vê obrigada a permanecer no agregado familiar de origem, muitas vezes sobrecarregando o núcleo parental.

911|Resultados Relativos

MARSEILLE FOI O PALCO escolhido para debater a pobreza e a exclusão social na União Europeia. Apesar da significativa evolução das últimas décadas, a verdade é que ainda existem 78 milhões de pessoas a viver sobreviver com as possibilidades mínimas (Público). Os números são gritantes e indicam que há ainda muito por fazer na zona do globo onde os padrões de qualidade de vida são elevados e se referem não só ao consumismo capitalista americano, mas também a uma tradição cultural e artística intensa. Os resultados alcançados são relativos. Portugal - a par da Holanda, Malta e Irlanda - apresenta resultados positivos, reduzindo o índice de pobreza de vinte e um (21) para dezoito (18) por cento. Apesar das melhorias nestes quarto países a verdade é que muitos mais têm sofrido recuos significativos, entre eles países vitais no aprovisionamento da qualidade de vida e na estabilidade financeira europeias, como sejam a Alemanha, a Dinamarca, a Finlândia, a Itália ou a Suécia. Esta situação indica o lento e quase transparente processo de recuos na igualização das condições de vida e de acesso europeias. Se um punhado de países consegue reunir a quantia de 1700 mil milhões de euros para salvar o sector bancário, então é possível fazer muito mais pela pobreza e exclusão social. A Europa, velha guarda do pensamento, precisa repensar a sua autonomia decisória e auto-suficiência. Urgently.

{photo by organicc}

907|Eutanásia e Praça Pública

A Associação Portuguesa de Bioética (APB) vai entregar esta semana um parecer ao Governo, ao Parlamento e ao Presidente da República a propor a realização de um referendo nacional sobre a prática da eutanásia. Rui Nunes, presidente da instituição, acredita que a legalização da morte medicamente assistida vai ser alvo de debate público e que será prioridade no início da próxima legislatura (Público). A Eutanásia é para mim um tema fundamental uma vez que, remetendo para uma representação de valores, elucida bem a visão própria do mundo. Porque não vejo necessidade de voltar a formular a minha opinião sobre o assunto, transcrevo o post recente sobre o assunto:

UM DOS VALORES que reservo à esquerda trata-se da liberdade individual assegurada por uma ética pessoal sobre todos os condicionalismos culturais. A esquerda entende a vida humana como um processo natural, biológico, que se expande para uma vivência social e individual, regulada pela norma social mas salvaguardada pela livre escolha do sujeito, sem imposições que não aquelas que promovem a estabilidade e a segurança colectivas, a lei, portanto. Nesse aspecto, a propriedade sobre o próprio corpo deve prevalecer como o mais básico sinónimo de liberdade, inquestionável e inalienável. Conquistámos o direito de manipulação do nosso corpo mas não de decisão sobre ele. A revolução da iluminação não atravessou o túnel do obscurantismo religioso cristão. A preservação ideológica da vida como instrumento sagrado condenada a decisão humana sobre o corpo. Há, portanto, uma instrumentalização da vida em prol de uma ideologia de fé, que mina fortemente a consagração do Estado de Direito.

O ABORTO E A EUTANÁSIA, constituem-se como direitos de propriedade sobre o corpo, parte integrante do existir individual e não tubo de ensaio de uma verdade incorpórea e religiosa. Nesse aspecto, o Estado continua por garantir a verdadeira liberdade, à medida que permanece o garante do monopólio da Igreja sobre o processo da vida e sobre a moral individual e social. Em termos de laicidade há uma mentira vigente e silenciada. A escolha sobre a própria existência deve constituir-se como um direito legal e não como uma matéria moral e de fé. A condenação do suicídio como acto imoral tendeu a desaparecer. Onde outrora constituia motivo para a não-realização de funeral, é agora matéria de laica análise psiquiátrica. O caminho é esse.

A MORAL RELIGIOSA, entenda-se, é também um direito individual (e não social-colectivo), mas não pode constituir-se como matéria de regulação legal. O direito à eutanásia representa a consagração dos direitos individuais e deve obrigatoriamente ser assegurado pelo Estado. Está em causa a verdadeira laicidade e o garante das liberdades humanas sobre qualquer condicionalismo ético, moral e religioso. Aliás, a ética profissional, neste aspecto, está também ela fecundada no embrião religioso, que coloca a vida como matéria do sagrado e não do terreno, como propriedade de uma fé e não do sujeito social. Há, portanto, que garantir o livre direito à decisão sobre a própria vida, relegando a Igreja para o seu devido lugar - campo espiritural e de fé. Chega de políticas do Vaticano. [link do post]

903|Jogo do Pião

OS JOGOS TRADICIONAIS fazem parte do nosso imaginário colectivo. Todavia, ao serem tradicionais implica que tenham sido largamente esquecidos. Infelizmente. O jogo do pião, por exemplo, foi um divertimento saudável transversal a várias gerações. Os campeonatos de rua, bairro ou aldeia ficaram na memória de grande parte da nossa população. Seduzidos por novos jogos, cada vez mais solitários e electrónicos, os mais jovens vão deixando de encontrar significado e lazer nos jogos tradicionais portugueses. Obviamente, que parte da culpa advém de uma sociedade cada vez mais solitária e filha de um urbanismo que isola os mais novos. Por outro lado, a escola e os familiares devem fomentar a ligação das novas geração aos jogos tradicionais, recuperando o espírito de desportos de lazer e de grupo. Daquilo que me lembro, só troquei o pião pelo iô-iô muito tarde. Não recordo de na minha escola alguma geração a seguir à minha ter jogado ao tradicional pião. Fomos os últimos do pião e do berlinde. O meu pai, esse, foi até gastar as mãos.

900| Anos 90

OS ANOS 90 FORAM, na sua essência cultural e social, um prolongamento da década anterior. Musicalmente são fruto da qualidade incomparável da década de 1980, herdando bandas, géneros e compositores. Esteticamente a década da minha adolescência ficou agarrada ao enquadramento visual dos eighties. Continuámos a andar acompanhados do walkman (símbolo marcante de toda a minha entrada na fase adolescente) e só mais tarde introduzimos o discman. As calças rasgadas, os penteados, os chapéus à Doherty, os ténis All Star, a segurança criada pelos anos fulgorosos do neoliberalismo, seduzidos pela simbologia de uma América dominante expressada pelo poder da sua bandeira e das séries televisivas como Beverly Hills 90210. Herdamos da geração anterior a esperança, a motivação social e a crença num futuro melhor, ideais que a geração que atravessa a década de 2000 não foi capaz de absorver. Fomos nós, acredito, os últimos de uma geração verdadeiramente social e culturalmente inconformada. Manuela Ferreira Leite chamou-nos “rascas”. Tanto melhor.

p.s. nenhum outro tema honraria o post número 900 do Kontrastes.Org

887| Casamento Gay

SOU PUBLICAMENTE FAVORÁVEL ao casamento homossexual. Trata-se, para mim, de uma questão de liberdade e pleno gozo dos direitos humanos de construção de laços de familiaridade e matrimoniais. É, portanto, uma questão tanto laica quanto religiosa. É laica porque remete para a separação dos poderes político e religioso, deixando ao Estado a regulação e satisfação dos direitos e vontades individuais e colectivas. Mas é sobretudo religiosa, porque é na religião que reside o busílis da questão. Grosso modo a religião tem sido a maior responsável no atraso do garante da igualdade de género e da igualdade de tendência sexual. Séculos de moral cristã serviram basicamente para reforçar as assimetrias de género e promover um clima de medo e de falsa moralidade. O pecado é o sabor da vida. Nesta questão (tanto quanto na liberdade e igualdade religiosa, aborto e eutanásia) a providente acção do Estado português permanece ancorada à vontade política da Igreja. A moral religiosa e os direitos civis não podem permanecer fruto da mesma colheita. É por isso que Eduardo Pitta [link] considera, e bem, uma aberração de leitura jurídica. O enquadramento legal tem passado sempre por uma censura moral prévia. Um passo seria a rejeição por parte da comunidade gay da vivência religiosa cristã. Amor com amor se paga.

877| Eutanásia, um direito

UM DOS VALORES que reservo à esquerda trata-se da liberdade individual assegurada por uma ética pessoal sobre todos os condicionalismos culturais. A esquerda entende a vida humana como um processo natural, biológico, que se expande para uma vivência social e individual, regulada pela norma social mas salvaguardada pela livre escolha do sujeito, sem imposições que não aquelas que promovem a estabilidade e a segurança colectivas, a lei, portanto. Nesse aspecto, a propriedade sobre o próprio corpo deve prevalecer como o mais básico sinónimo de liberdade, inquestionável e inalienável. Conquistámos o direito de manipulação do nosso corpo mas não de decisão sobre ele. A revolução da iluminação não atravessou o túnel do obscurantismo religioso cristão. A preservação ideológica da vida como instrumento sagrado condenada a decisão humana sobre o corpo. Há, portanto, uma instrumentalização da vida em prol de uma ideologia de fé, que mina fortemente a consagração do Estado de Direito.

O ABORTO E A EUTANÁSIA, constituem-se como direitos de propriedade sobre o corpo, parte integrante do existir individual e não tubo de ensaio de uma verdade incorpórea e religiosa. Nesse aspecto, o Estado continua por garantir a verdadeira liberdade, à medida que permanece o garante do monopólio da Igreja sobre o processo da vida e sobre a moral individual e social. Em termos de laicidade há uma mentira vigente e silenciada. A escolha sobre a própria existência deve constituir-se como um direito legal e não como uma matéria moral e de fé. A condenação do suicídio como acto imoral tendeu a desaparecer. Onde outrora constituia motivo para a não-realização de funeral, é agora matéria de laica análise psiquiátrica. O caminho é esse.

A MORAL RELIGIOSA, entenda-se, é também um direito individual (e não social-colectivo), mas não pode constituir-se como matéria de regulação legal. O direito à eutanásia representa a consagração dos direitos individuais e deve obrigatoriamente ser assegurado pelo Estado. Está em causa a verdadeira laicidade e o garante das liberdades humanas sobre qualquer condicionalismo ético, moral e religioso. Aliás, a ética profissional, neste aspecto, está também ela fecundada no embrião religioso, que coloca a vida como matéria do sagrado e não do terreno, como propriedade de uma fé e não do sujeito social. Há, portanto, que garantir o livre direito à decisão sobre a própria vida, relegando a Igreja para o seu devido lugar - campo espiritural e de fé. Chega de políticas do Vaticano.

→ texto em simultâneo no «A La Gauche» [link]

{photo by fredalbrighton}

869|O Portugal Escondido

HÁ UM PORTUGAL que os políticos não querem ver. É um país que (sobre)vive escondido e calado e que, de quando em vez, aparece nos meios de comunicação social, muitas vezes preenchendo brechas informativas outras tantas com efectivo interesse de alerta político e social. Esse Portugal do segundo milénio ocidental assemelha-se, gravemente, ao Portugal do primeiro milénio, das cidades marcadas pela pobreza, pela precaridade e pela prostituição forçada. A miséria brasileira que observamos à distância de um Oceano, bate-nos à porta enquanto temos os estores fechados (Público). As crianças vendem aquilo que possuem - e nem totalmente - o seu corpo. Quem compra, adquire a concretização de fantasias, à medida que vai contribuindo para o perverso ciclo vicioso da criminalidade sexual.

→ sugestão de leitura: colhemos o que semeamos (…)in «Bandeira Negra»