CARLOS MANUEL CASTRO fala e bem de algo que tem preenchido a mancha gráfica de caracteres, aqui pelo «Kontrastes.Org» - o novo posicionamento estratégico brasileiro e o crescimento dos seus factores de poder. Diz, às tantas, que o Brasil “é a grande potência emergente e o único grande país do mundo firmemente apostado na construção de uma nova era”. Subscrevo. Não posso deixar contudo de corrigir um pequeno (grande) detalhe no post de CMC. Fernando Henrique Cardoso não consolidou a economia brasileira, apesar de ter consolidado a democracia. FHC herdou de Collor de Melo o paradigma governativo da ‘normalidade’, tendo sido responsável por um retrocesso económico de sessenta anos (ver aqui).
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TEM SIDO TAREFA INGLÓRIA convencer a sociedade civil da mais-valia estratégica da coaligação luso-brasileira. A nova formulação da política externa brasileira, solidificada em torno da afirmação da sua autonomia decisória, tem permitido ao Brasil (precisamente porque a sua economia apresenta um crescimento sustentado) afirmar-se globalmente como um actor importante no seio do sistema multipolar das relações internacionais. Portugal, tardiamente, começa a ter consciência do papel que o Brasil representará no ordenamento internacional e na afirmação da língua portuguesa no mundo. Quinhentos anos depois estamos de volta à Bahia.
{photo by Gonzalo P. P .}
CHÁVEZ ANDA ILUDIDO acerca de vários aspectos (Público). Primeiro acredita no valor político-estratégico de uma relação com Portugal, como forma de ultrapassar uma “má imagem” internacional. Segundo, faz fé na relação com Lula da Silva como verdadeira relação de igualdade e mútua valorização. A Venezuela é para o Brasil um ponto estratégico de poder na região. Para Portugal, o país de Chávez, serve como plataforma de investimentos económicos. Mais uma vez, a realpolitik a funcionar.

O JOÃO SILAS [link] entende que eu não sei e não compreendo as dificuldades que atravessam aqueles que nascem e crescem nas favelas, nomeadamente os afro-descendentes que trazem atrelado a si uma série de preconceitos e estereótipos que vão desde o sambista-malandro à própria intolerância religiosa (dificilmente um membro de uma religião afro-brasileira consegue emprego estável). Tanto sei (e arrisco sem medos dizer que até bem melhor do que o João Silas) que o tema dá-me para inúmeras reflexões entre as quais se inclui um livro. Conheço a realidade com toda a clareza. É óbvio que há todo um complexo social latente cujas origens remontam ao período colonial e se reforçam com a independência do Brasil. São factos. No entanto, os factos e as leituras sociológicas não anulam o problema real: o crime organizado e o papel da massa brasileira nesse aspecto. Admitem, os próprios brasileiros, que os mais recentes imigrantes do seu país a chegar a Portugal, não constituem uma contribuição benéfica para a sociedade. Muitos sabem ao que vêem e trazem na bagagem um bom currículo no mundo do crime. Há alternativas ao ciclo vicioso do crime, nas favelas? Há, dá é muito mais trabalho e requer coragem para enfrentar os preconceitos sociais, uma coragem mais complexa do que aquele que é necessária para enfrentar as balas. Portanto João, não ache que eu não sei do que falo.

SEGUNDO UM ESTUDO realizado no Brasil, trinta e um por cento dos adolescentes que mantêm relações sexuais (para o caso heterossexuais) não usam qualquer método anti-conceptivo, optando pela pílula do dia seguinte. Uma decisão extremamente perigosa, não só porque não previne a contração de DSTs (Doenças Sexualmente Transmissíveis), como ainda acarreta uma dose de efeitos negativos para corpos ainda em formação. [mais info]
A LADEIRA DO TABOÃO já não é a mesma. Local histórico de Salvador, palco de momentos únicos na história da cidade, do Estado, do país. A ladeira que assistiu de camarote a Revolta dos Malês (negros muçulmanos) e à vida e morte de Quincas Berro D’Água, é hoje um lugar esquecido da cidade, habitado por dias cinzentos e longe das memórias de outrora. Por ali passeiam-se, agora, toxicodependentes, pedintes e marginais. Moradores e comerciantes, resistentes ao samba lento do tempo, convivem com a decadência a esperança de melhores dias, promessas que vêm com o selo dos sucessivos governos da cidade e do estado. O próprio centro comercial, tombado com património da humanidade, vem perdendo o seu fulgor. Por ali a vida vai-se tornando uma sucessão de dias. A criminalidade que se foi instaurando por ali contribuiu, de forma determinante, para a degradação urbana e humana de um dos mais significativos pontos da cidade de Salvador.
DE PROMESSAS não pode viver nem uma população nem uma cidade do ponto de vista urbanístico-turístico-cultural, particularmente tratando-se de uma cidade recebe milhares de turistas e oferece um passado histórico único, que congrega a presença europeia (portuguesa e amiúde holandesa) e africana. É crucial revitalizar os locais históricos da cidade, dotá-los de novas funcionalidade, requalificá-los, a fim destes se tornarem pólos turísticos de vivência urbana. Deixar morrer a Ladeira do Taboão é um erro grave, muito grave.
[image by Fonseca]

O CORREIO DA BAHIA está a realizar uma “enquete” aos seus leitores, online, sobre aquilo que Salvador tem de melhor. Os resultados não poderiam ser mais óbvios e mundanos: 26 por cento consideram que são as praias e o sol o maior atractivo da capital bahiana, 22 por cento apontam o Carnaval, 20 por cento a alegria do povo, 17 por cento a diversidade cultural, 8 por cento a culinária e 4 por cento a Festa do Bonfim. A consciência da mais-valia cultural e étnica da cidade de Salvador - como de todo o Estado da Bahia - permanece ainda por explorar e fomentar. Uma população que não tem ciente o seu “eu”, o seu lugar no mundo, coloca em risco a preservação identitária, no caso riquíssima.
[image by Zé Eduardo...]

JUCA FERREIRA, novo Ministro da Cultura brasileiro, desaprova a substituição do “calçamento português da orla soteropolitana“. Caetano Veloso junta-se ao coro de protestos. Para Juca Ferreira o Iphan ( Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) caiu num erro claro: “Esse afã em substituir as marcas coloniais por padrões de urbanização despersonalizados não contribuem para o embelezamento da cidade nem para a melhoria da qualidade do ambiente urbano”. Acima de tudo, a medida do Iphan denota alguma desorganização estratégica na promoção da identidade brasileira. Se por um lado promove com elevados padrões de qualidade a memória africana no país, por outro está a apagar a herança colonial portuguesa. O património histórico português é uma marca da presença colonial e da formação do país. Retrata um período da história brasileira, ao mesmo tempo que representa um atrativo turístico. Acrescentar, não substituir o património cultural.
[vista do Pelourinho, centro histórico de Salvador, com marcas portuguesas; foto de rivello]
A aproveitar a silly season da melhor maneira possível - a meio gás com a crise financeira geral e climática - faço uma escapadinha ao ciberespaço para deixar esta notícia: “a pobreza no Brasil continua a diminuir“. Duas perguntas: o que têm a dizer os críticos do governo Lula? Afinal qual dos países é do terceiro mundo, Portugal ou Brasil? Think about it.
Não só por cá é possível verificar um centrismo das rivalidades políticas. No país irmão, o Brasil, o PT e o PSDB, partidos rivais, são pródigos em alianças. Segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) os dois maiores partidos brasileiros, ideologicamente distantes, são parceiros em mais de mil cidades brasileiras. A gestão municipal requer certos procedimentos pragmáticos e as alianças políticas apresentam-se como o novo modelo governativo, substituindo assim o tradicional rotativismo político. Todavia, esse rotativismo deverá permanecer nas presidencias. Em 2010 dará tucanos ou petistas?





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