VIM AGORA DA CASA FERNANDO PESSOA. Trago na algibeira uma meia dúzia de constatações. Primeiro, é inadmissível que a CFP tenha um orçamento anual de trinta e cinco mil euros. A Câmara Municipal de Lisboa devia ter vergonha de não apoiar uma instituição cultural alfacinha que promove uma das mais ilustres figuras da história de Portugal. Segundo, é inaceitável que o governo português tenha feito tão pouco para comemorar os 120 anos do nascimento de Fernando Pessoa. Terceiro, é inacreditável que tenha de ser um canal estrangeiro, neste caso a «Globo» a produzir um documentário sobre o poeta. Quinto, é inqualificável o desinteresse dos sucessivos governos para com a Cultura. Este país, de facto, really sucks.
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UM DOS PONTOS MAIS importantes da vida cultural e histórica bahiana é a Fundação Casa Jorge Amado, antiga morada do ilustre romancista. A bahianidade só é possível ser pensada, retratada e compreendida através do romanceiro de costumes de Jorge Amado, da pintura de Carybé e das fotos de Pierre Verger. Ali, em pleno Pelourinho, alma de Salvador de todos as crenças, de todas as etnias, de todas os santos, a herança é ainda da cidade amada, da cidade de Amado.
As dificuldades dos tempos de crise - que apesar de tudo afectam menos o Brasil - e os complexos da gestão de uma Fundação nascida do afro-bahianismo de um escritor, levam a direcção a uma medida drástica: leiloar parte do acervo da fundação. Entre as obras leiloadas contarão pinturas de Carybé, oferecidas pelo argentino tornado bahiano ao amigo que conheceu na cidade da africanidade. A obra mais valiosa é um painel da artista brasileira Djanira, amiga de Jorge Amado, intitulado “Candomblé”, de 1955, de 2,5 por 2,4 metros, que será leiloada por, pelo menos, 800 mil reais (Público). É, sem dúvida, de uma tristeza imensa, ver partir tanto da bahianidade, sem se ter certeza da identidade dos compradores. Ao menos que fosse para a Fundação Palmares.
{photo by Paula Marina}
MADRID FOI ONTEM À NOITE palco de um debate que trouxe Zeca Afonso de volta da tumba, vinte anos após a sua morte (JN). Os acordes e as estrofes do cancioneiro de intervenção serviram de mote para uma intensa discussão sobre a importância da música na transição dos velhos regimes para a democracia em Portugal e Espanha. Em Portugal pouco se tem falado da importância da sua música, dos significados latentes, da cristalização de uma identidade nacional pela música, para além de se citar “Grândola, Vila Morena”. Continua-se a fazer muito pouco pela cultura em Portugal. Nesse campo somos, sem dúvida, muito mais terceiro-mundistas.
ADOLF HITLER pode ter sido - porque o foi - uma das mais sombristas personalidades da história contemporânea. As atrocidades cometidas pelo seu regime (que o facto de não ter sido caso isolado não serve de desculpa) não devem ligimitar a manipulação das aguarelas do líder nazi (Público). A originalidade da obra não só fica comprometida como representa um total desrespeito pela autenticidade e marca autorial. A criação artística deve sobreviver independente do trajecto pessoal do seu autor. Mau exemplo.
TIREI O FIM-DE-SEMANA e entreguei-me aos filmes. «O Sexo e a Cidade», «P.S. I Love You» e «Acordado». O primeiro é um agradável prolongamento da série, cenário que encontra as estrelas de quase uma década de vida sexual nova-iorquina um pouco mais velhas, cuja trama deixa Carrie casada, Samantha de regresso à poligamia, Miranda reencontrada com Steve e Charlotte grávida. «P.S. I Love You», faz parte de um leque de filmes americanos com cenário britânico. Trata-se de uma estória de amor prolongada para além da morte, através de um punhado de cartas post-mortem. «Acordado» relata-nos a experiência operatória de permanecer acordado depois da anestesia geral. Recomendam-se os três.
{photo by tuergeist}
A ESQUERDA HÁ MUITO PERDEU A SUA FORÇA. Digo-o inúmeras vezes por aqui. Sem receios, nem meias palavras. Tal como eu, numa esfera muito superior, José Saramago afirma-o claramente: “a esquerda não tem nem uma puta ideia do mundo em que vive” (Público). É o mesmo que dizer que a esquerda precisa reformular os seus próprios paradigmas, recodificar a sua leitura do real, construir perspectivas renovadas. Os lugares-comuns que minam a identidade política da esquerda fazem parecer insustentável, à medida que o mais forte partido do centro-esquerda, o Partido Socialista, vai caminhando para uma dimensão na qual não é coisa nenhuma. Para além dos extremismos ortodoxos, a esquerda portuguesa - à imagem das congéneres europeias - vive um vazio feito de promessas. A situação, contudo, não se reporta apenas à esquerda. Mas é dela, sem dúvida, que importa falar, enquanto motor de mudanças, engrenagem da vontade popular, produto do próprio devir. Já se acabaram as flores, foram-se as teses de mudança.
→ Em Linha: «A La Gauche»
AS MINORIAS, quer sejam étnicas quer sejam fisiológicas, tendem, por sua natureza diferente, não só a serem vistas como alvo ou preconceito, mas também a automanipularem-se como tal. O receio do tratamento descriminatório leva a comportamentos sociais-agressivos, como mecanismos de resposta a medos internos. Os activistas invisuais norte-americanos servem bem esta constatação (Público). O filme de Fernando Meirelles, baseado na obra de José Saramago, “Ensaio sobre a cegueira”, não pretende retratar o mundo dos cegos, antes procura colocar em palco as transformações internas geradas pela perda de capacidade visual. É natural que a perda abrupta da visão leve a comportamentos desorientados, afinal é preciso reconstruir toda a interacção com o espaço físico. Interpretar a temática da obra de outra forma é tendencioso. Que não sirva de arma política.
VASCO GRAÇA MOURA continua a usar o «Diário de Notícias» como plataforma de campanha “Em Defesa da Língua Portuguesa” [link]. Graça Moura continua a confundir a origem linguística com propriedade intelectual sobre a língua, tratando a língua portuguesa como um instrumento nacional, soberano, sobre todos os demais países falantes da língua. Se o problema de VGM é a perda de identidade linguística nacional então porque não propor o regresso ao galaico-português?

Os portugueses lêm pouco e quando lêm não é nada de jeito. Esta conclusão é muito fácil de tirar. Nos tops dos poucos livros vendidos em Portugal estão O Segredo e livros do Paulo Coelho. Ambos considero como respeitável mas má literatura.Muitas vezes os argumentos para não se ler em Portugal é o preço dos livros. Percebo. Como regular comprador confesso que não bons livros por muito menos de 20 euros.
Há, num entanto uma vaga de livros que podem mudar a situação. Hoje em dia é comum os jornais e revistas oferecerem ou venderem por preços simbólicos grandes clássicos da literatura. O DN ofereceu muito bons livros todo o Verão, actualmente a Sábado vende por 1 euro Duras ou García Marquez. Em cartão nos quiosques está disponível ainda a obra de Agata Christie. Morte no Nilo e Um Crime no Expresso do Oriente por 3.95 não deixa espaço para desculpas.
# Francisco Reis, in «Há Normal?» [link]

A EXPERIÊNCIA RELIGIOSA CRISTÃ condicionou a formação mitológica portuguesa. Por essa razão, à parte da construção mítica biblíca, não tem em Portugal mais do que uma meia dúzia de mitos, ainda assim muito superficiais e inconsistentes. O mito da Escola de Sagres é um deles. Com base no pressuposto de que o infante D. Henrique convidou um cartógrafo catalão para se colocar ao seu serviço, muitos consideraram (a partir logo do século XVI, com Damião de Góis), que teria havido uma Escola Náutica em Sagres, fundada pelo Infante D. Henrique, por volta de 1417, no Algarve. A escola, centro da arte náutica, teria assim formado grandes descobridores, como Vasco da Gama e Cristóvão Colombo. Após o seu regresso de Ceuta, o Infante D. Henrique fixa-se em Sagres, na Vila do Infante, rodeia-se de mestres nas artes e ciências ligadas à navegação e cria uma Tercena Naval a que é comum chamar-se a Escola de Sagres. De facto, o que se criou não foi uma escola no moderno conceito da palavra, mas um local de reunião de mareantes e cientistas onde, aproveitando a ciência dos doutores e a prática de hábeis marinheiros, se desenvolveram novos métodos de navegar, desenharam cartas e adaptaram navios. De acordo com os cronistas da época, largavam todos os anos dois ou três navios para as descobertas. [wikipédia] Não só não foi uma escola no moderno conceito, como também não partiram dali nenhumas caravelas. As características marítimas impossibilitavam quaisquer tentativas de navegação. Encontrar ainda relatos e informações constando tais imprecisões - na tentativa de promover a região - é uma adulteração da história.






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