É a coluna que assino numa revista também ela editada por mim e que conta com a participação de alguns bloggers portugueses. A Revista dá pelo nome de «Sem Correntes», é trimestral, luso-brasileira, sem fins lucrativos, não ideológica e multicultural. Segue o meu artigo: O consumo é um indicador sóciocultural determinante. Através dos índices de consumo podemos aferir o estado de desenvolvimento de uma sociedade, sabendo que as sociedades mais desenvolvidas são aquelas que apresentam níveis de consumo de massas de larga escala. A mesma lógica pode ser aplicada aos países em desenvolvimento ou subdesenvolvidos – o consumo encontra-se profundamente estratificado e segregado. No Brasil, durante séculos, o consumo foi algo praticamente inacessível aos negros, quer escravos quer libertos, não só porque a sua condição não lhes permitia almejar a obtenção de bens, mas também, e com particular relevo também, devido às restrições ao consumo por parte dos negros, mecanismo segregador. Nesse sentido, o consumo é claramente um indicador étnico. O Brasil, após atravessar um período de intensa industrialização e expansão económica, durante as décadas de 1960 e 1970, entrou numa recessão agravativa, que influenciou as décadas seguintes. Os períodos de instabilidade política originaram uma reestruturação do tecido social, em que uma população que se caracterizava por ser 70% rural, transformou-se numa população 70% urbana. Um choque migratório com consequências ao nível do planeamento (planejamento brasileiro) sócio-urbano. Os novos modelos de organização do trabalho, com especialização e consciência de classe, originaram mudanças em termos de possibilidades sociais, reduzindo as distâncias entre expectativas e possibilidades reais, principalmente no que se refere ao poder de aquisição e acesso ao consumo. O consumo é um indicador sóciocultural determinante. Através dos índices de consumo podemos aferir o estado de desenvolvimento de uma sociedade, sabendo que as sociedades mais desenvolvidas são aquelas que apresentam níveis de consumo de massas de larga escala. A mesma lógica pode ser aplicada aos países em desenvolvimento ou subdesenvolvidos – o consumo encontra-se profundamente estratificado e segregado. No Brasil, durante séculos, o consumo foi algo praticamente inacessível aos negros, quer escravos quer libertos, não só porque a sua condição não lhes permitia almejar a obtenção de bens, mas também, e com particular relevo também, devido às restrições ao consumo por parte dos negros, mecanismo segregador. Nesse sentido, o consumo é claramente um indicador étnico. O Brasil, após atravessar um período de intensa industrialização e expansão económica, durante as décadas de 1960 e 1970, entrou numa recessão agravativa, que influenciou as décadas seguintes. Os períodos de instabilidade política originaram uma reestruturação do tecido social, em que uma população que se caracterizava por ser 70% rural, transformou-se numa população 70% urbana. Um choque migratório com consequências ao nível do planeamento (planejamento brasileiro) sócio-urbano. Os novos modelos de organização do trabalho, com especialização e consciência de classe, originaram mudanças em termos de possibilidades sociais, reduzindo as distâncias entre expectativas e possibilidades reais, principalmente no que se refere ao poder de aquisição e acesso ao consumo. A expansão global da consciência dos direitos humanos e da igualdade racial, reflectiram-se no Brasil. Começam a emergir jovens negros e mestiços, com maior nível de instrução, que reclamam equidade racial e que promovem a «negritude» como algo positivo, como uma identidade. São também jovens de uma nova classe social negra, com relativo poder aquisitivo e que não “vestem a pele” de membros de uma cultura menor, suja, de classe baixa. Eles se sentem capazes de conjugar «negritude» com comportamentos sociais valorizados. É por isso que muitas das queixas de descriminação racial resultam do tratamento dos negros no processo aquisitivo de bens de luxo. Nesse sentido, a nova cultura negra, é fruto de uma maior consciência social e democrática, mas é também filha da globalização, uma vez que interiorizou a negritude americana. Essa nova identidade negra, mesmo na Bahia, já não está adstrita ao universo religioso do Candomblé, aliás nem precisa de se conjugar com a religião para encontrar laços referenciais. São jovens que assumem sua negritude e sua modernidade, pela música, pelo lazer, pelo turismo, pelo consumo. Esse novo consumo étnico negro no Brasil, já nada tem a ver com o consumo tradicional de objectos afro, particularmente importados do golfo do Benin e ligados à religiosidade yorubá-nagô. É um consumo fruto da importação de imagens globalização, pela media, e do contacto directo com os negros americanos que visitam a Bahia, recuperando laços com o tradicional. Jogam-se, então, redefinições culturais. Há um processo de troca identitário: os negros brasileiros dão a identidade tradicional negra e recebem, dos negros americanosobjectos e referenciais de afirmação negra moderna. Objectos aliás extremamente estereotipados, com o movimento hip-hop ou o referencial de Bob Marley. No entanto, interessa acima de tudo, compreender que o consumo (e mais concretamente as possibilidades de consumo) tem alterado padrões sociais no Brasil, reconstruindo novas formas de afirmação étnica, que colocam o negro mais próximo das classes médias brasileiras. Esse poder aquisitivo vem acompanhado de uma consciência étnica modelada pela globalização dos direitos humanos e da igualdade racial. Os negros brasileiros hoje são negros afirmados, orgulhosos e modernos.
[leia o número de lançamento da Revista «Sem Correntes» ]




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