MANUELA FERREIRA LEITE admitou o mais básico e sensato princípio da sua candidatura: a possibilidade de governar com maioria relativa (Público). A novidade não é nenhuma. A sua candidatura não agrega entusiasmos nas massas, nem mesmo agrega as vontades internas do partido. Conquistar a minoria seria algo positivo. Sócrates é mau, Leite é pior. No fundo teremos um duelo de menores. Os gigantes, esses, debatem-se noutras arenas.
Archive for the 'Política à portuguesa' Category
OS DEFEITOS E AS VIRTUDES devem caber por igual tratamento no mesmo saco. Pesem os inúmeros atentados do governo Sócrates ao «socialismo», a verdade é que o projecto «Magalhães» é um caso muito bem sucedido. O mesmo se poderá dizer da nova política externa portuguesa para os blocos emergentes da América Latina. Introduzir o tecido empresarial português e os serviços tecnológicos nesses mercados em crescimento (no caso do Brasil surge uma classe média com poder de compra crescente, movimento contrário ao português) é uma aposta necessária. Todavia, tornar o «Magalhães» bandeira e souvenir diplomático roça já o show off, para além de tirar dignidade ao computador.
TEM SIDO TAREFA INGLÓRIA convencer a sociedade civil da mais-valia estratégica da coaligação luso-brasileira. A nova formulação da política externa brasileira, solidificada em torno da afirmação da sua autonomia decisória, tem permitido ao Brasil (precisamente porque a sua economia apresenta um crescimento sustentado) afirmar-se globalmente como um actor importante no seio do sistema multipolar das relações internacionais. Portugal, tardiamente, começa a ter consciência do papel que o Brasil representará no ordenamento internacional e na afirmação da língua portuguesa no mundo. Quinhentos anos depois estamos de volta à Bahia.
{photo by Gonzalo P. P .}
O CRESCIMENTO ECONÓMICO brasileiro, aliado aos seus factores de poder, têm tornado o Brasil numa central potência no hemisfério sul e com grande crescimento de influência no eixo norte. Os centros de poder hegemónico não estão indiferentes aos resultados crescentes da economia brasileira. As tentativas de controlo do desenvolvimento do país - nomeadamente nos anos 90 com liberalismo americano - saíram goradas. O Brasil está aí, forte e cada vez mais seguro do seu papel como negociador entre as potências centrais e os países em crescimento. Portugal, todavia, por complexo histórico-social tem andado alheado dessa realidade. Foi necessária esta crise para despertar a inteligentia portuguesa (DN). Foi preciso, contudo, outros países lá estarem. Lá vamos a reboque.
→ para saber mais sobre a política externa brasileira contactar a Prof.ª Raquel Patrício
DEPOIS DO POTE AO FIM DO ARCO-ÍRIS, a cadeira do poder agrada a muito boa gente. Os políticos vendem a alma ao outro em troca de uma oportunidade de se sentarem nela. Manuela Ferreira Leite, aliás, como todos os outros políticos de carreira, tem um dossiê de governo muito bem preparado. Os ensaios teatrais dão a oportunidade de parecer coisas que não são. O transvestismo político é isso mesmo. Na oposição todos são fortes e todos têm a solução ideal para o país. Se assim é, a solução é simples: impossibilita-se os partidos de serem governos. Trabalham mais e melhor enquanto oposição.

RESOLVI DAR UM SALTO ao site do Partido Nacional Renovador. A linguística e a imagética por ali são profundamente xenófobas e messiânicas. “Portugal ao portugueses”, gritam. Mas o que é a raça portuguesa se não uma amálgama histórica de etnias? Mas isso são contas de outro rosário, que é como quem diz “fica para outro post” ou outro lugar. Todavia eles gritam meia dúzia de slogans racistas e sensacionalistas mas quando escrevem demoradamente optam por medidas mais contidas. Já não querem um Portugal feito de portugueses e sem imigrantes, querem sim aquilo que todos os partidos no fundo desejam, enquanto espelho da população: que não haja crime e que os criminosos sejam punidos. Não digo que eles sejam meninos de coro em pele de lobo, atente-se. Digo é que usam um conjunto de expressões e simbologias que depois tendem a minorar ao longo do discurso. Em suma, o PNR é feito de vontades e de gentes, cujo nível de leitura social varia entre o conservadorismo democrático e o mais profundo racismo.
TAMBÉM SE PODERIA chamar “negócios da China”. A ASAE é hoje uma mão activa no combate às irregularidades na área do comércio. A boa maquia de exigências feitas pelo organismo para que um espaço comercial esteja aberto ao público, são necessárias e essenciais. Todavia, há uma pergunta que se impõe: e as lojas dos chineses? Cumprimento de horários, dia de descanso, controlo da qualidade e prazos dos produtos, livro de reclamações, níveis aceitáveis de higiene, contrafacção e falsificação barata…há alguma destas coisas que seja alvo de atenção da ASAE? Bem me parecia. Há os que são filhos da diplomacia e outros que são filhos da outra, essa mesmo.
SENTE-SE POR ESTES DIAS, mais do que antes, um clima de insatisfação e insegurança na indústria portuguesa au nord. Guimarães, a cidade condal portuguesa, é nas suas caves uma cidade formada na indústria têxtil. A população, maioritariamente, depende da indústria que se formou fortemente nas décadas de 1980 e 1990, caracterizando-se por uma produção de qualidade superior, posicionando-se no topo das escolhas internacionais. Com o surgimento de focos de produção industrial financeiramente vantajosos (leste europeu e Ásia), particularmente em termos de custos de produção ligados à mão-de-obra barata e explorada, a indústria portuguesa começou a ressentir-se, não sendo raro o fecho de inúmeras pequenas e médias fábricas, conduzindo inúmeras famílias à situação de precariedade. Juntando a isso, as marcas fazem um pérfido jogo com as fábricas portuguesas: rejeitando encomendas completas ao sabor da lógica do mercado e da moda, imoralidade que não praticam com a indústria chinesa. O que faz o estado português? Nada. Há um desinteresse total do estado português (e por arrastamento da União Europeia) face à indústria interna, vítima de políticas incoerentes de importação de produtos chineses. Enquanto o governo não criar um gabinete ou organismo de defesa da indústria nacional, que impeça que situações como a rejeição de encomendas sem motivos plausíveis sejam levadas a tribunal, e ao mesmo tempo tenha um papel activo na promoção da indústria têxtil e de calçado portuguesas, a degradação continuará, criando situações de enorme precariedade social. E os partidos políticos? Em silêncio!
{photo by Austin_UK}

PEDRO SANTANA LOPES será candidato à Câmara Municipal de Lisboa, nas autárquicas de 2009 (Público). O político que melhor representa a ala liberal (e porque não dizer libertina) dos «sociais-democratas» está de volta à política das ruas. Acusado muitas vezes de fazer política sensacionalista e de não ter um compromisso com uma adequada postura pública, Santana Lopes é contudo o melhor homem para combater a demagogia socrática, nem que seja pela sua capacidade de melhor manipular o espaço mediático, sendo capaz de preencher uma lacuna actualmente vigente no PSD. Não sei se ganha, mas sem dúvida que agitará o espaço público bem melhor do que Manuela Ferreira Leite. Se por um lado não é difícil, por outro é por si só uma vitória.
A Associação Portuguesa de Bioética (APB) vai entregar esta semana um parecer ao Governo, ao Parlamento e ao Presidente da República a propor a realização de um referendo nacional sobre a prática da eutanásia. Rui Nunes, presidente da instituição, acredita que a legalização da morte medicamente assistida vai ser alvo de debate público e que será prioridade no início da próxima legislatura (Público). A Eutanásia é para mim um tema fundamental uma vez que, remetendo para uma representação de valores, elucida bem a visão própria do mundo. Porque não vejo necessidade de voltar a formular a minha opinião sobre o assunto, transcrevo o post recente sobre o assunto:
UM DOS VALORES que reservo à esquerda trata-se da liberdade individual assegurada por uma ética pessoal sobre todos os condicionalismos culturais. A esquerda entende a vida humana como um processo natural, biológico, que se expande para uma vivência social e individual, regulada pela norma social mas salvaguardada pela livre escolha do sujeito, sem imposições que não aquelas que promovem a estabilidade e a segurança colectivas, a lei, portanto. Nesse aspecto, a propriedade sobre o próprio corpo deve prevalecer como o mais básico sinónimo de liberdade, inquestionável e inalienável. Conquistámos o direito de manipulação do nosso corpo mas não de decisão sobre ele. A revolução da iluminação não atravessou o túnel do obscurantismo religioso cristão. A preservação ideológica da vida como instrumento sagrado condenada a decisão humana sobre o corpo. Há, portanto, uma instrumentalização da vida em prol de uma ideologia de fé, que mina fortemente a consagração do Estado de Direito.
O ABORTO E A EUTANÁSIA, constituem-se como direitos de propriedade sobre o corpo, parte integrante do existir individual e não tubo de ensaio de uma verdade incorpórea e religiosa. Nesse aspecto, o Estado continua por garantir a verdadeira liberdade, à medida que permanece o garante do monopólio da Igreja sobre o processo da vida e sobre a moral individual e social. Em termos de laicidade há uma mentira vigente e silenciada. A escolha sobre a própria existência deve constituir-se como um direito legal e não como uma matéria moral e de fé. A condenação do suicídio como acto imoral tendeu a desaparecer. Onde outrora constituia motivo para a não-realização de funeral, é agora matéria de laica análise psiquiátrica. O caminho é esse.
A MORAL RELIGIOSA, entenda-se, é também um direito individual (e não social-colectivo), mas não pode constituir-se como matéria de regulação legal. O direito à eutanásia representa a consagração dos direitos individuais e deve obrigatoriamente ser assegurado pelo Estado. Está em causa a verdadeira laicidade e o garante das liberdades humanas sobre qualquer condicionalismo ético, moral e religioso. Aliás, a ética profissional, neste aspecto, está também ela fecundada no embrião religioso, que coloca a vida como matéria do sagrado e não do terreno, como propriedade de uma fé e não do sujeito social. Há, portanto, que garantir o livre direito à decisão sobre a própria vida, relegando a Igreja para o seu devido lugar - campo espiritural e de fé. Chega de políticas do Vaticano. [link do post]







Comentários Recentes