Archive for the 'Engrenagem dos dias cinzentos' Category

- Espírito Outonal -

FINDA-SE O ESTIO e as primeiras folhas vestem-se de tons pastel e vermelhos. As primeiras gotas anunciam como aves de trompete a chegada de uma nova estação. A música das folhas que caem marca o compasso da novidade, do sempre-eterno. As árvores preparam o vestido de gala e cobrem-se de novos perfumes, mais serenos que o florido cheiro primaveril. Por todo o lado a vida, em novas formas, acontece. Sentem-se os aromas da terra húmida. Saboreiam-se as primeiras maças de Outubro. É outonal a vida por estes dias.

Há Dias Assim

Percorrem-se os caminhos ontem secos de um calor estival. Mudam-se as lentes de uma mesma realidade. Hoje chove. A paisagem dos dias quentes embriagou-se. A chuva em dias de Verão traz um aconchego sonolento ao compasso do tempo solitário. As lágrimas de umas nuvens perdidas enchem os campos de um aroma simultaneamente quente e húmido de uma natureza frágil e ulterior. A terra molhada torna-se num mapa de registos arbitrários. É Verão e chove. Há dias assim.

[image by clrrchrd]

ODI ET AMO: As paisagens mentais originadas pelos «fins de ciclo», o saudosismo lusitano que me leva a olhar cada instante como um quadro pintado que tem mais cor na hora em que o deixamos para trás. Aquele nó na garganta que nos impede de prosseguir sem ficar presos às recordações, agrilhoados aos instantes especiais. É assim que olhamos cada dia o espelho, como símbolo do reflexo, máquina do tempo.

Apago a luz, olho para trás sobre o ombro que oscila,
As lágrimas de neón nos ramos verdes cintilam compassadamente,
O instante já passou …
O nó na garganta aperta mais que gravata em dias de festa …
É desta que com a saudade vou.

Olho triste a aurora tripartida
Será que é vida?
Aquela que o relógio diz que passou.

E prendo-me, inevitavelmente, à poética dos sentidos,
Choro lágrimas secas e promessas vãs,
É amarga a hora, olho lá fora
O céu a sorrir.

É saudade … o toque de campainha.

::imaginary room by Tugumu::


TENHO
uma paixão natural pelos dias cinzentos e nebulosos. Há qualquer coisa nostálgico e intimista — quase psicanalista — nos dias cinzentos. Fechados e místicos, misteriosos e invulgares, proféticos e messiânicos. A engregagem dos dias cinzentos leva-nos até ao interior de nós mesmos, coloca-nos um olhar fotográfico profundamente introspectivo. São românticos, poéticos e literários. Chamam-nos a debruçar na leitura ou a mergulhar na virgindade de uma folha em branco…no silêncio do quarto, olhando pela janela, vamos até Lothlorien ou visitamos os castelos frios da Escócia… São assim, os dias cinzentos.

|||GERAÇÃO RASCA: Será que existe uma geração rasca ou antes todas as gerações são rascas em relação às gerações anteriores? A geração dos anos 90 foi apelidada de «geração rasca», muito graças à sua ausência de ideais e assim apatia social, quando comparada com as gerações de 60, 70 e 80. Mas a verdade é que também aquelas foram «gerações rascas», na medida em que souberam romper com as normas sociais, com o status quo, que se insurgiram contra o “classicismo” social, renovaram e recriaram valores, e assim entraram em confronto com a geração dos seus pais. Ou seja, foram rascas para as gerações anteriores. Mas foram rascas renovadoras e activas, conscientes da realidade local, nacional e internacional, procuraram destabilizar a norma e promover novas atitudes sociais: anti-racistas, pela paz universal, contra a pobreza no mundo, activistas dos direitos humanos, preocupadas com a fome em África, descontentes com os governos que restringem as liberdades individuais. As gerações seguintes nasceram com tudo definido, sem muros ideológicos, sem necessidade de romper com com correntes sociais, sem desafios e sem ideais. É uma juventude que não se ergue.

||| la tristesse de pas rentrée


::© André Carrilho::

O mês de Setembro, marca invariavelmente o fenómeno social do regresso à normalidade. A rentrée, como é hoje designado, tornou-se um objecto de análise social incessantemente estudado. Aquele recuperar de processos e rotinas quebradas pelas férias, o regresso ao dia-a-dia, etc.

Para mim, o mês de Setembro tornou-se nos últimos dois anos — com o fim do curso — sinónimo de saudosismos, de um vazio interior marcado pelas memórias, pelo recuperar do cheiro dos livros novos, dos dossiers organizados por disciplinas, pela mochila nova e pelo rever dos colegas de turma. Sim, a saudade é maior dos tempos de escola do que da universidade (também eles muito bons, mas sem a magia dos tempos do ensino básico)… relembro as promessas feitas a mim mesmo de que este ano iria estar mais atento às aulas, estudaria mais…relembro a alegria contagiante dos jogos de futebol de boas-vindas, em que a “sede” de jogar era insaciável, o conhecer os novos professores e reencontrar os mesmos que a cada esquina me diziam: “estás mais alto”. E depois havia aquela relação com a escola que fui criando ao longo dos doze anos que lá passei, onde conhecia cada recanto como a palma da minha mão.

Setembro da chuva que deixa a terra molhada por entre os raios de sol que dançam nas árvores que se despem. E aquele sentimento de que o que foi não volta a ser.