HILLARY CLINTON não é um fantasma das eleições que recentemente marcaram o cenário político americano e por extensão, mundial. Clinton, segue o exemplo de Palin, e pretende manter-se politicamente viva. Não pondo de parte uma futura recandidatura à presidência dos EUA, a sr.ª Clinton prepara-se para voltar à Casa Branca, desta feita com funções políticas. A diplomacia será o seu novo rosto.
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O PÚBLICO TRAZ hoje estampado no online a primeira gaffe de Obama enquanto presidente. A mesquinha procura de algo que lhe seja apontado leva-me de novo a trazer ao discurso um provérbio da minha autoria: gato que não tem rabo, arranja-se onde pegar.
FOI PRECISAMENTE por causa a exacerbação meteórica da personalidade de Barack Obama (que encerra uma irremediável exportação do messianismo português e que agora o Rui Bebiano tão bem expressa) que andei a dizer que apesar de tudo o então candidato a presidente, senador Obama, teria um poder simbólico maior como vencido do que como vencedor. Deixaria sempre o “mas e se…?” no ar, a expectativa do que poderia ter sido. Desapontar o eleitorado é já uma condição de partida de qualquer político, mas como Obama não é um político qualquer - é a encarnação da esperança renascida - cada pequeno erro é um passo da montanha rumo a Mahomé - um acontecimento gritante.
{photo by Delta Niner}
981|A pós-racialidade de Obama
NINGUÉM TEM SABIDO dizer a verdade étnica de Obama. Não é negro, nem branco, dizem e ficam-se por aqui. Na verdade, Barack Hussein Obama representa uma realidade étnica-cultural que não é nova, mas que só agora começa a ser abertamente falada nos Estados-Unidos e na Europa: a mestiçagem. Obama é mestiço. Nesse aspecto está também muito próximo da sociedade brasileira, onde o mestiço é o cidadão comum. A mestiçagem é, na verdade, a pós-racialidade, o resultado do encontro de raças, a fecundação de um novo código genético. É por isso que Obama é rejeitado pelos conservadores brancos e negros, e aceite amplamente pelos liberais negros e brancos. Obama disperta as consciências multiculturais e pluriétnicas. Ele é o cidadão nascido da diversidade, é puro melting pot. Não sendo um dado novo no DNA social dos Estados Unidos (Brasil e subtilmente Portugal) é uma brisa nova na política mundial. Constitui-se como um vanguardismo social, como a promessa de uma sociedade em que a raça não é o canal de laços de sociabilidade. O silêncio do BE, PCP e PEV não é positivo. Transpira o oportunismo mediático da defesa das minorias e do multiculturalismo. O pensamento medíocre é simples: não dá votos nem protagonismo? então não estamos interessados.
1. Estas eleições foram as mais concorridas e mediáticas de sempre, com uma afluência às urnas que constitui um recorde em cem anos. O fenómeno Obama, apelidado desde cedo de Obamania, trouxe uma nova participação cívica aos EUA, envolvendo na esfera da política pública cidadãos que nunca haviam votado ou sentido um entusiasmo presidencial (ver crónica de Rui Tavares)
2. A campanhado do então Senador do Illinois foi a mais financeiramente apoiada da história da política americana, arrecadando à volta de 60 milhões de dólares. Os montantes - boa parte vindos do eleitorado, através de pequenas contribuições e recolha de fundos - serviram para Barack Obama conduzir uma campanha espectacular que sustentou bem o seu aguerrido e poderoso discurso.
3. Como se esperava John McCain saiu vencedor na América profunda, saloia, conservadora e tradicionalmente católica-fervorosa: Alabama, Arkansas, Carolina do Sul, Dakota do Norte, Geórgia, Kansas, Kentucky, Louisiana, Oklahoma, Mississipi, Tennessee, Texas, Utah, Virgínia Ocidental e Wyoming.
4. Os demais Estados - a maioria - deu uma resposta muito significativa às inúmeras dúvidas de quão progressistas são os Estados populacionais multiculturais. Obama é, então, o primeiro presidente de uma nova América que a administração Bush ajudou a criar. Uma América em que raça e credo cada vez importa menos, que faz mea culpa em xenofobias e racismos históricos, que acredita numa nova ordem multilateral, na importância dos direitos humanos, do diálogo internacional, das causas ambientais e que prefere tentar algo de novo, refrescante, do que continuar a ser governada por presidentes tradicionalistas, distantes, de famílias conservadoras, i.e., presidentes que não representam em nada o povo americano.
5. O Obama é o presidente pós-racial e multicultural. Ao não ser negro nem branco, ele é a nova morfologia da multiculturalidade, da aproximação de raças, da convergência de culturas. É a resposta de que a América é um país feito de gente de todas as origens étnicas.
6. Obama é o presidente que prefere a inteligência, a educação e diálogo construtivo ao debate ofensivo tradicional das campanhas políticas. É por isso um presidente de uma nova ordem racional. É a esperança de que o mérito substitui as quotas raciais.
7. A vitória de Obama reabre as portas de uma nova construção de poder simbólico americano. A administração Bush fez o mundo olhar os EUA com desconfiança, desrespeito e descrédito. Hoje, ao eleger um presidente negro, a América voltar a dar ao mundo um exemplo de abertura democrática, de multiculturalismo positivo e não forçado, e volta a exportar aquilo que de melhor tem o «american dream». Porque no plano internacional o poder simbólico é mais forte e coeso que o poder bélico, os EUA deixaram o mundo de novo esperançoso e a olhar para ele com confiança e admiração. Obama é, sem margem de dúvidas, o primeiro presidente mundial. Hoje Barack Obama tem mais poder na Europa que Nicolas Sarkozy, Angela Merkel ou Gordon Brown. Ao ser o presidente que todos desejaram para a América é o presidente que todos desejam para si.
8. As eleições que agora terminaram foram as mais concorridas na blogosfera. Tendo atingido a sua maturidade e alargado o seu campo de acção, a blogosfera acompanhou com fervor todas os passos dos candidatos, particularmente de Obama. Sobre ele e sobre as eleições forem escritos milhares de posts. No Kontrastes, com este, estão 77 textos sobre a mais mediática eleição política das últimas décadas. Aposto que sobre as eleições internas de 2009, nenhum blogue terá tantos posts como teve sobre as eleições americanas. É sinal do poder globalizado dos EUA.
O SHARK COLOCA a seguinte pergunta: “O descalabro será maior se, contra as expectativas, Obama não for eleito ou, sendo ele o escolhido , o candidato do resto do mundo vier a revelar-se uma desilusão e ficar tudo na mesma?” [link] A resposta não é possível sem uma boa dose de expectativa e uma margem aceitável de erro. Obama herdará (os próximos meses dirão) um país à deriva e com uma fragilidade económica gritante. Oito anos de Bush deixaram marcas profundas na Casa Branca. O filho da burrice levou o país ao fundo do poço, aos limites. Nesse sentido, Obama (a vencer) terá uma batata quente nas mãos. Por isso, acredito que como presidente não será o messias que muitos esperam, mas será sem dúvida a mudança que milhões acreditam. Mesmo que essa mudança seja uma mudança simbólica. A sair derrotado, os EUA dão ao mundo uma resposta negativa, afirmando claramente que não é um país sério. Há, também, outra hipótese sobre a mesa, essa bem mais séria: revolta das massas. Mesmo que seja contida, tal insatisfação deixará o rastilho que ameaçará abrir uma fissura no país. O remendo, acredito, será provisório.
A UM DIA DE CONHECERMOS O FUTURO presidente norte-americano (conhecermos portanto grande fatia do futuro estratégico global), Barack Obama segue bem posicionado. As sondagens indicam uma vantagem de 7, pontos para o candidato democrata (Público). Nas próximas horas termina uma corrida de cavalos que motivou milhões de apostadores.
COM AS ELEIÇÕES AMERICANAS a entrarem na recta final, com os candidatos a debaterem-se cabeça a cabeça rumo à meta, é importante relembrar que nada está ainda decidido. O fulgoroso apoio universal a Barack Obama não lhe garante a vitória, da mesma maneira que o comedido McCain está afastado de uma continuidade republicana de poder, sabendo aliás, que a América parola também vai a votos. Todavia, é importante reflectir que significado terá uma derrota de Barack Obama. Já o disse, e é hora de o repetir, que um Obama vencido é simbolicamente mais poderoso do que um Obama vencedor. Primeiro porque deixa sempre a névoa do que poderia ter sido, segundo porque permanece cristalizado enquanto promessa de um novo amanhã, terceiro também deixa a América em maus lençóis. Jamais a esfera internacional olhará para os EUA sem aquele pingo de desconfiança natural face a um país que vota em racismo e em conservadorismo sistémico. Obviamente, que Obama não será enquanto político tudo aquilo que a sua eloquente retórica promete. Contudo, sendo metade será quanto baste para ser melhor. A nossa direita engravatada de comichoso pudor prefere desconfiar à partida.
SARAH PALIN não só representa o pior da política americana (1,2,3,4) como cai no erro da impercepção dos seus próprios limites. Uma possível candidatura a Presidente dos EUA, em 2012 (Público), só pode ser resultado da paródia em que se tornou o Partido Republicano. Ao que parece, qualquer parolo pode aspirar a liderar a maior potências política mundial. Se isto é uma afirmação de verdadeira democracia, também é uma afirmação do parolismo como retrato da nação.









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