O paradigma do Estado Normal irrompeu na América Latina carregada de enorme simbolismo e consciência regional durante a década de 1990, marcado pela miragem de uma globalização benigna, orientada pelas recomendações do centro capitalista.
Regra, todos os países sul-americanos enfrentavam graves problemas de estabilidade económica perturbada pela inflação. Os estruturalistas, entendiam que tais problemas superar-se-iam com medidas a longo prazo, ao passo que os monetaristas acreditavam numa solução através de tratamentos de choque. Entre 1989 e 1990, são eleitos presidentes neoliberais nos grandes países sul-americanos, albergando os monetaristas (de formação norte-americana) nos cargos decisórios. Nesse sentido, foram adoptadas medidas de choque pelos governos de então, como aconteceu no Brasil de Fernando Collor de Melo.
Neste sentido, onde antes se tinha condicionado o conceito de «desenvolvimento» a um sentido de expansão industrial e crescimento económico, passou-se agora a centrar as regras de actuação na lógica da “funcionalidade do Estado”, uma vez que ao mesmo cabia prover a estabilidade económica e o desenvolvimento.
Os anos de 1980 haviam tornado os países latino-americanos em devedores americanos, graças à subida das taxas de juro aplicada pelos governos de Ronald Reagan. O denominado «Consenso de Washington» conjugou-se com as exigências do Banco Mundial, FMI (Fundo Monetário Internacional) e dos Estados-Unidos. Os dirigentes sul-americanos haveriam de adoptar as regras impostas pelo centro, adoptação sem a qual não poderiam aceder a empréstimos.
Ser “normal”, como apelidou Domingo Cavallo, Ministro das Relações Exteriores de Menem, consistia em cumprir essas regras impostas, ser “normal” tornou-se uma obsessão dos governos sul-americanos, que aplicaram tratamentos de choque com puro sentido exibicionista.
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Os neoliberais sugeriam um choque de mercado para reanimar o capitalismo da época da Guerra Fria. Os governos de Margaret Tatcher e Ronald Reagan seguiram as instruções, reforçadas com o fim da União Soviética. A América Latina entrava assim no regionalismo aberto e no pensamento monetarista. Os neocepalinos propunham uma dupla actuação com a abertura económica exigida pela globalização e a integração regional, feita de acordos comerciais, a fim de evitar efeitos negativos da abertura imperativa.
O neoliberalismo, transformou-se na América Latina num fundamentalismo do final do século XX, misto de fé e utopia, trazendo consigo muito pouca construção científica. Fernando Henrique Cardoso, académico, produziu inúmeros textos, carregados de crença em fórmulas neoliberais, e sobretudo, crença no império do mercado como indutor de desenvolvimento. No plano internacional abre-se mão dos interesses nacionais em nome da “governança global”, o ordenamento multilateral.
→ As relações económicas internacionais, orquestradas pelos negociadores “normais” encaminharam o Brasil rumo à destruição do património nacional construído durante sessenta anos (!). Os mecanismos de privatização das empresas públicas, exigência do centro capitalista, deram prevalência ao capital e empresas estrangeiros.
Sem projecto de desenvolvimento e sem recursos, a era FHC, era dos “normais” levou a economia brasileira à estagnação, interrompendo um ciclo de 60 anos de desenvolvimento caracterizados pelas mais elevadas taxas de crescimento entre os países capitalistas. Os impactos do período do «Estado Normal» são percepcionados de duas maneiras: por um lado, o choque de abertura despertou os empresários brasileiros dos sectores público e privado, outrora acomodados a um proteccionismo maligno, responsável pelo Estado Liberal-Conservador. Neste sentido foram obrigados a modernizar os seus métodos de produção, perante uma fluente presença de produtos estrangeiros. Por outro lado, aprofundaram-se as dependências estruturais e mergulhou-se num regresso histórico, dando razão aos estruturalistas latino-americanos que preconizavam medidas de actuação a longo prazo. As dependências financeira, tecnológica e empresarial, elevaram a vulnerabilidade externa do país a níveis críticos. A economia nacional regrediu até ao início do século XX, época dos liberais-conservadores.
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