Caro Paulo, o problema não é só a predisposição humana para seguir discursos proféticos, o problema reside também na formação desse mesmo discurso. No caso da IURD, o seu fundador, o “bispo” Macedo representa o que de pior o Brasil tem. Ele fundou uma Igreja na ânsia de encontrar uma mina de ouro, conhecendo o carácter religioso do povo brasileiro. Depois de estudar o campo das outras religiões, resolveu andar pelo seu próprio pé. O resultado está aí. Só não vê quem não quer. Esses sim precisam de uma intervenção divina.
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entre o poder central e o poder religioso. É um imperativo que a Igreja dos Homens encara como uma afronta, após séculos de conivência e usufruto de privilégios particulares. Depois da legalização do aborto e da intenção de pôr fim à assistência espiritual e religiosa nos hospitais, a proposta socialista de desburocratizar o divórcio, pondo fim ao processo litigioso, caiu que nem uma bomba no seio da Igreja Católica portuguesa. D. Carlos Azevedo, porta-voz da Conferência Episcopal Portuguesa, vai mais longe: “o Estado tem a obrigação de reconhecer o papel social da Igreja e de o promover do mesmo modo que promove o desporto, ao apoiar a construção de estádios“. Obviamente que não se pode negar o papel social da Igreja através de inúmeras obras de caridade e auxílio. Contudo, à Igreja cabe reconhecer os seus limites de actuação, admitir que já não é o caminho religioso único na sociedade portuguesa, é apenas mais. A Igreja que tem sido um Estado dentro do Estado português, não pode exigir a promoção da sua identidade por parte de um governo cujos cofres estão manifestamente mais vazios que os seus. Mais ainda, exigir essa aposta é o mesmo que forçar o governo a reabrir as portas do poder à Igreja, roubando um espaço que custou a ser ganho. Poder político e poder religioso podem ser concordantes em determinados temas, mas jamais poderão ser coniventes. Além do mais, confundir religião com desporto é um jogo de poder que a Igreja sempre procurou fazer, criando claques de fiéis. O governo não pode abrir mão da laicização social.
|||A FÉ DOS HOMENS: Amanhã é sexta-feira santa. Em tempo de Quaresma a Igreja veio falar na fé e nos desígnios da Humanidade. Teme, a Igreja, que os Homens se afastem da sua aba, que a modernidade origine um Homem independente da fé e dos temores a Deus. O Homem que não ama a Igreja e não teme a Deus representa um perigo, não para si mesmo (como quer fazer crer a instituição) mas para a organização de fé. O fim do controlo é o fim da Igreja. Num país ‘padrista’, a mudança é um sinal de perigo.No domingo de celebração da Sagrada Família, o padre de Vila Nova de Milfontes aproveitou a homilia para uma cruzada anticristã. Disse, a uma audiência que incluía crianças e jovens, que os problemas da instituição “família” se devem aos homossexuais. Argumentou mesmo, por palavras próximas destas, que a homossexualidade não é natural; natural é só a obra de Deus! Ora bem, se Deus não criou os homossexuais então não sei quem os criou, porque Deus, recordo, é o Criador de todas as coisas, (e nenhuma delas antinatural). Ao receber lições de cristandade, aprendi sermos todos filhos Dele, nós pretos ou brancos, nós árabes ou judeus, nós heterossexuais ou homossexuais. (…) Porque mais que custe ao pároco de Milfontes, se Cristo estivesse vivo em carne e osso, rezava hoje mais depressa junto da comunidade gay e lésbica perseguida pela maioria social do que junto a si, que naquele dia fez de fariseu. (…) A Igreja pode não aceitar a homossexualidade, mas culpá-la do fracasso do matrimónio e da falta de filhos é ir muito longe. (…)
Entretanto lembrei-me que Milfontes é a tua terra, Chico. E sem dúvida que é um artigo que interessará aos autores de «Renas e Veados» e «Assumidamente».
… criticaram duramente o papel da mulher no cristianismo e no judaísmo (no islamismo, pelo menos directamente, ninguém tocou). (…) É sem dúvida lamentável que a gente que escreveu o Antigo Testamento entre o século X e o II a.C. não conhecesse e privasse com a dr.ª Augusta e o dr.º Mário Soares, para vantagem da humanidade e da correcção política. Sobretudo, como hoje se constata, a ausência da dr.ª Augusta (e do PS) foi trágica. (…) A dr.ª Augusta “não fica descansada” lá porque a mulher é “enaltecida” em “textos religiosos”. De maneira nenhuma. Como presidente do Departamento das Mulheres Socialistas, uma seita temível, não descansa enquanto não corrigir em pessoa, e em assembleia geral, os “textos religiosos” que por aí andam a pregar, com insídia, a supremacia do homem”.
Vasco Pulido Valente, tem aqui um artigo no mínimo faccioso. Primeiro, porque opta pelo Antigo Testamento em detrimento do Novo Testamento (aquele que é mais essencial a vivência cristã). Segundo, porque aproveita um tema religioso que tem implicações históricas e sociais no papel da mulher para atacar Mário Soares e Manuela Augusta e mais concretamente o Departamento das Mulheres Socialistas. Não que o PS mereça qualquer consideração para além do mínimo exígivel do respeito humano.
VPV esquece — ou prefere esquecer em nome de uma qualquer vivência de fé pessoal — que foi essa Igreja dos Homens que contribuiu definitivamente para a exclusão social da mulher nos últimos séculos. O papel secundário, a ausência de direitos iguais, o controlo parental, uma sociedade maioritariamente patriarca, tudo é uma construção de uma Igreja feita pelo sexo masculino. Não venha VPV com argumentações baratas em nome de uma história da humanidade feita de contextos próprios. Fique-se lá com a amizade com Frei Bento Domingues.
modernização e o progresso social. O Papa da restauração do fundamentalismo católico apelou ontem aos farmacêuticos católicos italianos a recorrerem à figura da objecção de consciência para não administrarem medicamentos destinados à interrupção voluntária da gravidez ou à eutanásia. Mais uma vez a Igreja a querer colocar-se acima da Lei. Laicidade por onde andas?
[tags: Igreja, Bento XVI, fundamentalismo, eutanásia, IVG]Certo é que a Igreja tem medo dos novos tempos, como sempre teve. A necessidade de actualização e respostas às questões modernas, o diálogo inter-religioso e a adequação aos valores actuais sempre representaram um problema para uma Igreja feita de velhos. A Igreja não quer modernidade quer revivalismo. Nisto estamos conversados.


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