::CONTEXTOS:: Os milagres de Fátima marcam uma viragem histórica da religiosidade moderna em Portugal. Depois de séculos de fervorosa fé e cristandade profunda, a I República proclamou um novo Estado laicizado e alicerçado na racionalidade. A extinção das ordens religiosas contribuiu para uma atmosfera de descrédito e desconfiança. Um país de religiosidade profunda encontra-se, após a queda da monarquia e o estabelecimento de uma república, num vazio de referências religiosas.
Ora, não só para a população isto constitui um descontentamento, como para a própria Igreja que se vê, assim, privada de ingerência num país histórico cristão. Há, portanto, um ambiente desfavorável face à I República. Quando três crianças, provavelmente subnutridas e ensolaradas, afirmam terem tido uma visão de uma figura transcendente materializada junto a uma árvore, que interiorizaram ser Maria, mãe de Jesus, a Igreja viu ali uma oportunidade única para “matar dois coelhos de uma cajadada”. Por um lado, criar uma onda de religiosidade que recupera-se o prestígio e a necessidade de ordens religiosas; por outro abalar os alicerces de um Estado laico, fazendo-o, deste modo, cair e substituindo-o por um regime alicerçado num partido cristão. O Estado Novo estava em marcha e o nome de Salazar era já ecoado nos corredores da preparação.
::RECRIAÇÃO E MANÁ COLECTIVO:: Depois dos relatos no mínimo dúbios dos “três pastorinhos”, fechados num segredo conventual, e com o povo num turbilhão de emoção religiosa, a recriação do milagre através de festividades e louvores à divindade, parecia o caminho mais seguro na construção de uma vivência colectiva de religiosidade em torno do lugar (Fátima) e construção de memória histórico-religiosa do acontecimento. O hábito de recriação do milagre levava à calendarização de um costume socialmente adquirido, construído e aceite.
Com a definição de um cerimonial cujas regras estão definidas e interiorizadas, cria-se uma permanente criação e recriação do maná colectivo, isto é, uma energia partilhada originária do compartilhar de uma vivência transcendental, de fé e fortemente emotiva.
Portanto, no caso do milagre de Fátima, não se trata pois, de saber se de facto se deu tal experiência religiosa relatada por três crianças, trata-se na verdade de um palco de criação de uma experiência conjugada e permanentemente recriada, cujo clímax se atinge nas celebrações do 13 de Maio. É esta experiência partilhada que vai conferindo sentido às celebrações, que descontextualizadas perdem o seu significado.



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