Apetecia-me escrever: não compreendo o racismo, nunca compreendi. Mas será? Se fizer uma arqueologia dos meus sentimentos, dos meus sentidos, das minhas perspectivas e preconceitos, nada encontrarei que se pareça com um julgamento apriorístico dos outros baseado em características étnicas? (…) Mas também uma espécie particularmente insidiosa de racismo, aquela que permitiu até a uma criança colocar-se no lugar de superioridade que diz “eu aceito-te, vês?”. E desse racismo, o mais difícil de identificar e sacudir de nós, o que disfarça o desrespeito com supostos bons sentimentos e a desigualdade com uma teoria geral da compensação, não estou certa de estar livre.
É, sem dúvida, um artigo extremamente interessante, este, e que recomendo vivamente. Fernanda Câncio coloca-nos no olhar de uma criança de sete anos (ela própria) ao lidar com a diferença racial. Não só percebemos que o preconceito racial é uma herança cultural, como entendemos que a educação anti-racista não deixa de constituir um comportamento de diferenciação étnica. É óbvio que esta diferenciação não tem uma carga ideológica adjacente. Aliás, todo o ser humano tem consciência de si mesmo através do outro, daquilo que lhe assemelha e daquilo que os diferencia. O que é sinónimo de valorização étnica é aquilo que Fernanda Câncio descreve como: “… que permitiu até a uma criança colocar-se no lugar de superioridade que diz “eu aceito-te, vês?”. Essa superioridade à priori que se tornou intrínseca do ser humano, é que condiciona as relações raciais. O “eu aceito-te” ou “eu tolero todas as raças”, isto é, a tolerância racial (religiosa, etc.) são posições de auto-confiança e auto-afirmação. São posturas que denotam uma certeza de ser dono da verdade e que por isso mesmo se tolera aqueles que a desconhecem, aqueles que são menores. Isto sim, é a mentira social.




Como escreves tão bem?
Há racistas e eu é que sou ruim?