Fico feliz com sua resposta. E vou separando aqui algumas fotos que fiz sobre algumas coisas que vejo neste Brasil. Assim aos poucos vou te mandando impressões de um brasileiro e na medida do possível você me conta de coisas de Portugal, coisas que te perguntarei sobre esses problemas, sociais, jurídicos e a visão que os portugueses tem de si mesmos, dos outros, enfim, coisas que ajudam a compor uma visão da vida no país.
Me lembro de textos que li no Cidadela e no VoxBlogs, cidadãos portugueses reclamando de problemas semelhantes aos daqui, impunidade, parcialidade em casos jurídicos, descaso de autoridades em relação ao cidadão. E eu sempre pensava, até começarmos a trocar idéias, que depois da Revolução de Abril, Portugal tinha se livrado de um passado estagnado e tinha definitivamente alcançado níveis europeus de satisfação do cidadão.
Mas temos o que Manuel Bonfim, um estudioso do Brasil do princípio do século passado explicou: males de origem, em livro do mesmo nome, onde fala não só sobre o Brasil, mas da América Latina. Portugal e Espanha tiveram o mesmo berço, as colônias portuguesas e espanholas se moldaram com a mesma mentalidade política. Daí nossos problemas de hoje.
Mas acredito que a par disso meu caro João, que o ser humano em sua busca por uma vida melhor para ele e para seus filhos, tenta sempre romper esses estruturas passadas. Os brasileiros não são diferentes. E uma classe política e jurídica, que já se alicerçou em dinastias familiares nos meios de poder, faz tudo o que pode para impedir o progresso da nação, pois um povo culto, educado e capaz de defender a si mesmo, tanto pelas idéias como pela força, terá que excluir essa classe de parasitas políticos e sociais pela força. Por bem jamais sairão de onde estão.
Chegamos num ponto aqui no Brasil em que a morte de um representa a vida de outro. Pessoalmente me coloco como centro, se for para me rotular políticamente, mas dou razão a homens como Mao-Tsé-Tung quando falavam que “uma revolução é um ato de violência, onde uma classe depõe a outra pelo uso da força”. Não vejo mais outra saída aqui. Mas sempre existe o chamado fermento revolucionário, que aos poucos vai mudando corações e mentes.
Metade da população já apoia um regime autoritário. Uma pequena parcela dos militares já começa a demonstrar uma certa irritação. Enquanto isso, os repórteres, que no Brasil, ajudaram a prostituir sua própria profissão, em troca de favores de políticos e isso desde 1985, cantam as virtudes de uma democracia e cidadania de fachada, vazias, mas nos bastidores comentam seus receios que dessa vez, as coisas vão esquentar além do que podem imaginar. Eles ajudaram a montar esse cenário.
E não me arrependo de ter votado em Lula. Sabia que ele era dos males o menor. Enquanto ele, eu posso descrever assim, era o ladrão de carteiras, seus adversários, a soldo de grandes corporações estrangeiras, iriam roubar o banco inteiro. Ou seja, nessa democracia ficamos reduzidos a isso: votamos no punguista ou no assaltante de bancos.
Lula não decepcionou os velhos oligarcas, os caciques políticos que viram ser melhor se aliar a ele. Hoje aparece defendendo as coisas que sempre atacou, esquecendo até mesmo dos seus irmãos nordestinos, que assolados pela mesma seca e fome que ele passou, estão alí como massa de manobra a receberem pequenos mantimentos, com grandes anúncios do governo. Pela fome e pela pobreza, ficam reféns meu caro João, de estenderem a mão para receber uma mísera sacola de mantimentos e depois estenderem a mesma mão com o voto desejado numa urna.
Vejo as declarações de José Saramago se dizendo decepcionado e muito com Lula e eu já sabia que isso iria acontecer, mas como te disse, era dos males o menor. Olho para a figura de homens assim, Mao-Tsé-Tung, Che Guevara e independente da posição ideológica, vejo que em certos momentos da vida de uma nação, só um choque de extrema violência faz com que as coisas tomem outro rumo, que só assim uma nação pode se salvar em certos momentos da história.
Mas devagar as coisas vão acontecendo.
Assim fico feliz com sua idéia de juntarmos escritos num espaço eletrônico. É uma coisa pequena, parece desanimador, mas penso na chuva. Que importância damos a uma gota de chuva? Mas é o efeito multiplicado dela que produz uma terra fértil. Assim é com nossos pequenos escritos. Uma idéia aqui, outra alí, uma observação à frente e assim vem um chuva de idéias, de concepções novas e tudo vai mudando. Não foi de outra forma que se mobilizaram forças de mudança aqui no Brasil há muito tempo. Não foi diferente aí em Portugal, quando idéias aqui e alí, em 1974, terminaram na chuva dos cravos, digamos assim.
Acho uma ótima idéia. Um livro, espero que possamos fazer e a despeito das minhas dificuldades, devo assim que puder, pôr-me na estrada a fazer mais fotos desse povo, dessa situação toda, para ilustrar as coisas. As idéias, como sempre, com a intenção de demolir na crítica ferrenha, coisas que vejo aqui intoleráveis a quem se diga minimamente civilizado.
E assim meu caro João, como sempre, aos poucos, vão mudando as coisas, assim como um pedreiro, numa situação inusitada, vai aos poucos esfarelando com um pequeno martelo um grande alicerce, até que tudo caia.
Muitas vezes as idéias são assim, como um pequeno martelo, mas é a repetição de seus golpes que lhe dá a força de uma marreta.
Um grande abraço meu amigo e até a próxima.
Vellker, São Paulo



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