FÉ SOCIALISTA: Um Estado que se quer verdadeiramente democrático requer um divórcio entre o poder central e o poder religioso. É um imperativo que a Igreja dos Homens encara como uma afronta, após séculos de conivência e usufruto de privilégios particulares. Depois da legalização do aborto e da intenção de pôr fim à assistência espiritual e religiosa nos hospitais, a proposta socialista de desburocratizar o divórcio, pondo fim ao processo litigioso, caiu que nem uma bomba no seio da Igreja Católica portuguesa. D. Carlos Azevedo, porta-voz da Conferência Episcopal Portuguesa, vai mais longe: “o Estado tem a obrigação de reconhecer o papel social da Igreja e de o promover do mesmo modo que promove o desporto, ao apoiar a construção de estádios“. Obviamente que não se pode negar o papel social da Igreja através de inúmeras obras de caridade e auxílio. Contudo, à Igreja cabe reconhecer os seus limites de actuação, admitir que já não é o caminho religioso único na sociedade portuguesa, é apenas mais. A Igreja que tem sido um Estado dentro do Estado português, não pode exigir a promoção da sua identidade por parte de um governo cujos cofres estão manifestamente mais vazios que os seus. Mais ainda, exigir essa aposta é o mesmo que forçar o governo a reabrir as portas do poder à Igreja, roubando um espaço que custou a ser ganho. Poder político e poder religioso podem ser concordantes em determinados temas, mas jamais poderão ser coniventes. Além do mais, confundir religião com desporto é um jogo de poder que a Igreja sempre procurou fazer, criando claques de fiéis. O governo não pode abrir mão da laicização social.

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