|||UNFAITHFUL AMERICA: Na América há poucas coisas que perturbam tanto as pessoas do que a religião. Apesar de cidades como Las Vegas ou New York estarem pigmentadas por cidadãos de multiplas identidades e bases religiosas, a maioria dos cidadãos do vasto império do norte, têm na religião uma questão tabu. E sendo tabu é também central. Nada afecta os hipersensíveis e pobres espíritos americanos mais do que a diversidade religiosa que possa imperar por ali. É como se o anti-Cristo morasse em cada esquina.
Só um temor e uma repudiação à diversidade religiosa pode justificar que uma fotografia de Barack Obama trajando à maneira Somali causasse tamanho ruído de fundo político. A fotografia em questão foi tirada em 2006, quando o senador de Illinois visitava a província de Wajir, no nordeste do Quénia, de onde são oriundos os seus antepassados. Nessa altura posou para uma fotografia acompanhado do xeque Mahmed Hissan.

Até pode não ter sido o gabinete de Hillary Clinton a enviar a fotografia para os media, aliás tenho um palpite que aponta mais para os lados de McCain, mas a verdade é que esta pretende inegavelmente promover um clima de suspeição para com Obama. Na América um candidato islâmico, especialmente depois do 11/9, tem tantas hipóteses de chegar a Presidente quanto qualquer taxista nova-iorquino, no mínimo.

Aliás, a suspeição de que a fotografia terá origem no gabinete de John McCain trata-se disso mesmo, uma mera suspeita, uma vez que o candidato republicano repudiu um apoiante seu que se referiu a Obama usando o seu nome do meio: Hussein.

Para ajudar à festa, que é como quem diz para dificultar a vida a Barack Obama, o líder da Nação Islâmica, Louis Farrakhan, discursando numa convenção em Chicago, manifestou o seu apoio a Obama, considerando que o candidato democrata representa uma “esperança do mundo inteiro de que a América mude para melhor”, apesar de Obama ter denunciado por diversas vezes as posições anti-semitas da organização liderada por Farrakhan.

Em suma, os próximos tempos serão difíceis para Barack Obama, mesmo que queiramos acreditar nas open minds americanas. Distanciar-se do islamismo pode ser uma faca de dois gumes: por um lado pode perder eleitores islâmicos e aqueles que o olhavam como modelo de diversidade religiosa, por outro pode significar a derradeira hipótese de se manter na corrida à Casa Branca, mantendo intacta a sua imagem.


→ Já agora gostei da expressão dirty tricks usada pelo Nuno Goveia.

→ O título de Daniel Oliveira sobre o sucedido é no mínimo curioso.

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