DE QUALIDADE Q.B. Sem ser tão mau como me anunciavam mas inferior às expectativas, a adaptação da obra de Richard Matheson, considerado o melhor livro de terror do século XX, não vai além do que permitir a dúvida razoável a Francis Lawrence, que havia realizado o paupérrimo “Constantine”. Tendo por palco uma Nova Iorque entregue às ruinas da civilização, onde circulam animais selvagens que se misturam na noite com mutantes, “I am Legend” é um filme que coloca em cena um valoroso Will Smith num papel que não lhe assenta mal. Robert Neville é o último homem à face da terra (ou talvez não) que tem de se debater com um vasto número de mutantes originados de uma pretensa cura do cancro. À medida que os combates se travam e Neville vai procurando a cura para o terrível vírus, vai tendo de lidar com um dos básicos problema da humanidade: a solidão. A relação que desenvolve com a sua cadela, Sam, faz-nos recordar Tom Hanks em “Cast Away” que se vê obrigado a entrar num diálogo surdo com uma bola. O mega-orçamento do filme transformou-se em mais um entre centenas de filmes de acção produzidos para entreter as pouco exigente massas.
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FERNANDO MEIRELLES, estreava-se deste modo numa produção em que a língua de Shakespeare substitui a língua de Camões e Machado de Assis. Baseado no romance de John Le Carré, “O Fiel Jardineiro” é uma produção cinematográfica de uma qualidade quase arrebatadora, que nos oferece planos extraordinários, ao mesmo tempo que retrata África em toda a sua plenitude: feita de contrastes entre a riqueza de uma oligarquia e a pobreza da generalidade da população, a extraordinária paisagem e a profunda degradação da vida humana. Paralelamente a uma estória de amor vivida entre um diplomata inglês apaixonado por plantas e uma activista dos direitos humanos, desenrola-se - em sucessivas analepses e prolepses - a intriga política com contornos bem reais, que inclui autoridades governamentais, intergovernamentais e farmacêuticas multinacionais que usam a população africana como cobaias para novos medicamentos. O assunto africano poderá estar extremamente explorado, mas não estará de certo esgotado.
SÁDICO E ARREPIANTE. Eli Roth oferece um filme de baixa qualidade que mistura turismo sexual e violência sádica de forma gratuita e deslavada. Partindo de um cliché adolescente americano - viagem sexual pela Europa, em particular na Europa de leste, onde as mulheres seriam bonitas e fáceis - a estória adentra pela experiência arrepiante da existência de um centro de violência paga nos arredores de Bratislava. Há, em todos os detalhes da estória, nos planos e na brutalidade das imagens, uma tentativa de colagem ao superior sucesso “Saw”. “Hostel” é um filme que serve para entreter o inconsciente sadismo adolescente americano, ao mesmo tempo que os desencoraja a experimentarem a Europa. Pensar na existência de uma segunda parte deste filme só é possível acreditando que Eli Roth tem pelo menos uma mente perturbada. Ele e claro, todos aqueles que consideraram o filme algo de bom. Vou por ali, dou uma estrela também.
BENAVENTE É, SUCESSIVAMENTE, considerada uma autarquia rica. O executivo atribui o destaque a uma rigorosa política de gestão financeira. Ao mesmo tempo tem uma verbalizada preocupação com a fraca atratividade do concelho. Naturalmente que o executivo autárquico não consegue conciliar contração financeira com investimentos. Já referi, uma mão cheia de vezes, que Benavente é uma terra que não tem rigorosamente nada para oferecer, nem para potenciais turístas nem para os moradores. Diz Carlos Coutinho que o ano de 2009 “poderá proporcionar a realização de um conjunto de obras essenciais à nossa população“. Cá estaremos para ver.
A EXECUÇÃO DE WO WEIHAN, por parte do governo chinês, poderá contribuir decisivamente para o agudizar das relações entre o ocidente e a China. Apesar do crescimento económico chinês, a permanente violação dos direitos humanos levada a cabo por Pequim tenderá a diluir os parcos laços que ligam a China ao mundo ocidental. A União Europeia considera a execução “uma afronta”. É preciso muito mais. As execuções ilegais fazem parte do quotidiano da população chinesa. O livre-comércio é para a China uma questão de estratégia exportadora, no que toca às importações as alfândegas são seriamente defendidas. A contrafacção de manufracturados ocidentais tem o mais forte apoio estatal. A China é hoje uma pedra no sapato da ordem internacional - não respeita os direitos humanos, não negoceia em equidade, não respeita os mais básicos direitos do operariado. Serve-nos para quê? Por causa do perigo coreano? I guess it’s a joke.
SE ECONOMICAMENTE o país vai bem (pelo menos nesta hora menos mal do que os outros), em termos de maturação democrática há ainda um longo caminho a percorrer. Esse longo caminho não está estampado apenas nas grandes estâncias governamentais, no topo da pirâmide, mas começa na base, onde a política se faz localmente, passo a passo. A corrupção política vem dos tempos em que a Casa Grande ditava as normas, em que os fazendeiros impunham a lei e as delegacias e partidos políticos eram marionetes do seu jogo de interesses. O Tribunal Regional Eleitoral do Amazonas (TRE-AM) cassou o registro eleitoral do prefeito eleito de Manaus, Amazonino Mendes (Partido Trabalhista Brasileiro), e do seu vice, Carlos Souza, acusados de compra de votos através da distribuição de vales de combustível. Ao mesmo tempo, a Justiça Federal de Canoas (RS) determinou o afastamento do prefeito da cidade gaúcha de Sapucaia do Sul, Marcelo Machado (DEM), do vice-prefeito e do secretário de educação do município em razão de denúncia de fraude na compra de merenda escolar. Se o todo não se pode tomar pela parte, a parte também tem o seu quê do todo.
NÃO CONSIGO DESLIGAR carreira política de vida fácil. Para mim a carreira política é uma forma alternativa de prostituição. Mais limpa, mais elitista e estetizada, mas sinónima. Se numa se vende o corpo na outra vende-se a alma. Nesse sentido, quando penso das «jotas» dos partidos penso num bando de jovens de olhos postos nos tachos. Sem perfil para lutarem pela vida, procurarem um emprego normal, e ávidos de poder, de conquistarem um lugar no mundo dos interesses, dos jogos de poder, dos pelouros, tachos e compadrios. Dúvido que algum deles esteja de facto preocupado com o rumo do país. Já com o seu futuro imediato, a conversa é outra. As eleições na JSD servem bem de pano de fundo para esta constatação.
O POVO DEBATE-SE, hoje, entre a modernidade e o classicismo social. Vai vivendo, aos solavancos, a ideia de multiculturalismo, ao mesmo tempo que as tradições e a memória colectiva se enraíza no ruralismo identitário. O povo, feito de lembranças e saudosismos poéticos, pincelados pela clausura do Estado Novo, lida mal com a diferença, sendo por isso um povo extremamente desconfiado do próximo (embora seja também um excelente anfitrião). O Inquérito Social Europeu indica que estamos entre os povos europeus mais desconfiados do próximo, ao mesmo tempo que temos uma atitude de descrença face ao poder político. Isto significa que o jogo entre o conservadorismo social e o multiculturalismo se vai fazendo, a ritmos disformes, e que essa troca de identidades vai resolvendo racismos e criando mais estereotipias, simultaneamente. O desinteresse e a descrença face à política herdámo-la do tempo de Salazar e do Cardeal Serejeira, em que a governação era matéria de Estado e a oposição sobrevivia na clandestinidade. O nosso descontentamento traduz-se em desinteresse. Vamos cedendo aos partidos políticos a defesa dos nossos direitos, o garante da pluralidade e do Direito. O nosso activismo, fica-se pelo sofá.
{photo de Bruno Silva}
REFRESCANTE. É o adjectivo que melhor caracteriza, a meu ver, o filme de Phyllida Lloyd. Um elenco de luxo, uma paisagem brutal e a musicalidade intemporal dos Abba, fazem de «Mamma Mia!» uma nova referência no cinema musical. Revitalizando o “tempo da flor” e colocando de forma divertida a música dos Abba ao serviço do enredo, o filme traz-nos Meryl Streep, Julie Andrews, Colin Firth e Pierce Brosnan em papéis hilariantes.
MANUEL ALEGRE CONTINUA o seu périplo pelo eleitorado descontente com a esquerda portuguesa, particularmente os «socialistas» que não reconhecem o actual PS e os antigos comunistas desacreditados. Unindo forças com a malta «bloquista», Manuel Alegre procura encontrar um caminho democrático e seguro para o país, pela esquerda. A outra, que não a de José Sócrates.
JOSÉ SÁ FERNANDES viu-lhe retirada a confiança política por parte do «Bloco de Esquerda». O vereador dos Espaços Verdes, é assim varrido para debaixo do tapete da história (e estória) política do partido. O sorumbático político, amestrado e viciado nestas lides da vida política, pretende assegurar a sua continuidade na estrada caviar da luta social. Arremessa já ideias de unificação à esquerda - repetindo a cassete do PCP - ao mesmo tempo que se recusa a admitir uma integração nas listas do PS. Deixa tudo em aberto, portanto, não vá o diabo tecê-las.
CALDAS DA RAINHA é, a partir de hoje, mais uma cidade com centro comercial (Público). A proliferação dos espaços comerciais de grandes dimensões, albergando os mais variados serviços de consumo, têm reestruturado os hábitos de consumo e de lazer dos portugueses. À parte disso, os centros comerciais têm criado centenas de postos de emprego, tornando-se em pólos essenciais de empregabilidade. Do outro lado da moeda, os centros comerciais são também sinónimo de atestado de óbito ao comércio tradicional. As lojas de rua, marcas essenciais do rosto urbano, vão fechando as suas portas. As cidades e vilas vão ficando descaracterizadas.










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