
O blogue KØNTRÅSTËS. ORG está a publicar um conjunto de conversas informais mantidas via e-mail com os mais diversos bloggers. O objectivo é conhecer um pouco mais do blogger que dá vida ao blogue e abrir uma cortina para o que move cada autor de blogue. O convidado de hoje é Guilherme Roesler, 22 anos, advogado, brasileiro, e autor do blogue «Ação Humana».
1. Sabendo que a blogosfera é uma janela para a vida cibernética, como vê o fenômeno «blogue»?
GR. Em primeiro lugar, devo dizer que vejo a blogosfera como um canal alternativo de conhecimentos, que desempenha um papel importante na divulgação de informações que não são e que nunca serão veiculadas na grande mídia, bem como ainda um canal para divulgação de alguns assuntos que não encontrariam espaço nos comuns jornais impressos. Existem escritores que somente tomamos contato na blogosfera.
Muitos dos excelentes bloggers de Portugal e do Brasil dificilmente encontrariam a liberdade que gozam em seus blogues em um jornal de grande circulação, como o Expresso ou o Estado de São Paulo. Tanto em Portugal como no Brasil, o primeiro mais ainda que o segundo, veja-se o caso da licenciatura de Sócrates como um exemplo do que digo como a influência que está a ter os blogues.
No Brasil, nestes últimos dias, um dos jornais de maior circulação teve a idéia de ridicularizar a função dos bloggers, imaginando que eles apenas divulgam as informações já foram previamente publicadas nos grandes meios de comunicação. Esquecem, entretanto, que os blogues não são apenas veículos de informações, eles são muito mais do que isso, como disse.
Veiculam as informações com a opinião de quem escreve. Se naqueles veículos esta opinião explícita é suprimida em nome de uma pseudo-imparcialidade, nos blogues a opinião de quem escreve é a tônica dominante. Diria até necessária. Blogue significa liberdade, por isso mesmo incomoda tanto. Se Voltaire voltasse a este mundo, neste exato instante, certamente seria um blogger.
2. Quando acede à blogosfera que tipo de blogues procura?
GR. Não tenho um tipo preestabelecido de blogues ou de assuntos. Às vezes, procuro no Technorati por nome, assunto, até encontrar algum tema que me interesse. Mas normalmente visito os blogues que costumo salvar nos meus favoritos, como o Portugal Contemporâneo , o Arte da Fuga, Da Literatura e blogue do Bruno Garschagen. São leituras obrigatórias.
Do Brasil acesso principalmente o blogue do Aluisio Amorim ( O que pensa Aluisio), que me faz dar algumas risadas, e do Orlando Tambosi, blogues que basicamente focam em temas mais imediatos da política nacional.
Costumo evitar aqueles blogues dos jornais, pois não vejo diferença alguma entre seus artigos postados e os publicados no jornal impresso. A linguagem, a expressão são todas as mesmas. Como toda e qualquer instituição presa a certas ” regras”, demora muito para se adaptar à realidade. Os dois são uma espécie de Blasfêmias escrito por uma única pessoa.
Outro blogue que costumo acessar bastante é o do jornalista Janer Cristaldo. Gosto muito da sua narrativa, e, quando conta as suas experiências em viagens, impossível não terminar de ler as suas crônicas. Recomendo vivamente.
3. O que o levou a criar um blogue?
GR. Sempre gostei de ler e escrever, o que não significa que estes escritos meus devessem ser publicados. Uma vez mostrei um artigo a um primo, que tratava a respeito de um tema de Filosofia do Direito (estava então no primeiro ano da Faculdade), e questionei-o em que site poderia publicá-lo. Ele não sabia de nenhum, mas disse que poderia ter uma página própria, chamado blogue, que poderia publicar o que quisesse.
Até então nunca tinha ouvido falar. Montei um, o Gazeta Cultural, que tratava de assuntos relacionados ao mundo dos livros e assuntos voltados ao mundo das letras, como resenhas e comentários. A tônica era basicamente literatura.
Fiquei oito meses com ele, até que vi que as pessoas que acessavam meu blogue estavam mais afim dos assuntos que menos eu tratava do que aqueles que eu realmente estava publicando. Foi assim que o Gazeta Cultural se transformou no Ação Humana, um blogue sobre economia e temas relacionados, sem pretensão alguma, haja vista não ser economista. Foi a melhor coisa que poderia ter feito!
4. Que balanço faz da sua estadia na blogosfera e da blogosfera actual?
GR. Gosto muito da idéia que alguém lê aquilo que escrevo. Normalmente, para as pessoas normais, quem lê os seus escritos são os professores em trabalho de escola. Dificilmente tem uma repercussão maior. O blogue acabou com tudo isso. Qualquer pessoa, em qualquer lugar do mundo, pode ter seus escritos lidos e comentados. E isso é muito bom. Para mim, o saldo é positivo, só tenho que elogiar. De um modo geral, quanto à blogosfera atual, noto que está melhorando em muito. Novas ferramentas estão sendo criadas para sofisticação dos blogues, novos blogues coletivos são criados (idéia que aprecio muito), juntando uma pluralidade de idéias e debates maior do que aquela que encontramos normalmente em um blogue de autor único. Em certa medida foi por isso que criei o Anarkokapitalism, que tem três bloggers.
5. Acha que os blogues podem substituir a imprensa online?
GR. Dificilmente. Este é um debate que tem o mesmo cabimento daqueles que acreditam que os e-books vão substituir os livros impressos. Por mais que os blogues tenham a ganhar influência (e certamente é o que irá ocorrer), não creio que irão substituir o jornal que compramos nas bancas de jornal.
Além do que, não há nada mais gostoso que cheiro de jornal e a ponta dos dedos suja com a tinta do papel.
6. Em que medida os blogues influenciam ou influenciaram a sua vida e/ou actividade profissional?
GR. Em diversos aspectos. Primeiro, que minha monografia do curso de Direito será a respeito de um tema que, se não fosse a internet e alguns blogues, dificilmente sairia. Segundo, que certos tipos de informações já ” esquecidas” pelos grandes grupos jornalísticos não podem ser encontradas tão facilmente como as que são encontradas na internet.
Nesta minha monografia, por exemplo, que espero virar um livro ( o tema será sobre a emissão privada de moedas contra o monopólio estatal - o plano original seria sobre a teria monetária do Pe. Juan de Mariana), a maior parte da bibliografia será de livros encontrados na rede, na sua totalidade em inglês.
Infelizmente, não dispomos no Brasil da tradução destas obras. O mesmo ocorre com Portugal, apesar da indústria de livros aí ser maior do que a do Brasil. Aí ainda pode-se apelar para outros paises, aqui não. Somos uma ilha. Tudo se complica.
E os blogues, em certa medida, nos avisam de toda e qualquer mudança ou inovação de que necessitamos para os temas que temos apreço. Além do que, tenho por saldo positivo as pessoas que conhecemos. Dificilmente trocaria e-mail com um jornalista que não tivesse um contato maior que teria com o advento dos blogues.
7. O que faz um bom blogue?
GR. Acredito que os blogues que visitamos. Veja eu, por exemplo, João - todo dia escrevo um artigo, e não tenho idéia alguma do que irei escrever enquanto não visitar alguns blogues. Três blogues são suficientes para que eu encontre um tema. Em seguida vêm os leitores, que comentam aquilo que escrevemos.
Gosto mais quando criticam do que quando agradam. Gosto quando o José A. Mostardinha, do blogue Estados Gerais, começa um comentário assim: Não poderia estar mais em desacordo contigo . Gosto disso, pois sempre tenho que dar explicações. Explicar a quem discorda é a melhor maneira de aprimorar o seu conhecimento e seu discurso.
Voltando ao início, é por isso que os blogues dos grandes grupos de informação nunca serão iguais aos blogues: nem para comentar te dão a liberdade de que necessita.
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