Archive for Junho, 2008

Carta ao BES (verídica)

Exmos. Senhores Administradores do BES

Gostaria de saber se os senhores aceitariam pagar uma taxa, uma pequena taxa mensal, pela existência da padaria na esquina da v/. Rua, ou pela existência do posto de gasolina ou da farmácia ou da tabacaria, ou de qualquer outro desses serviços indispensáveis ao nosso dia-a-dia.

Funcionaria desta forma: todos os senhores e todos os usuários pagariam uma pequena taxa para a manutenção dos serviços (padaria, farmácia, mecânico, tabacaria, frutaria, etc.). Uma taxa que não garantiria nenhum direito extraordinário ao utilizador. Serviria apenas para enriquecer os proprietários sob a alegação de que serviria para manter um serviço de alta qualidade ou para amortizar investimentos. Por qualquer outro produto adquirido (um pão, um remédio, uns litro de combustível, etc.) o usuário pagaria os preços de mercado ou, dependendo do produto, até ligeiramente acima do preço de mercado.

Que tal?

Pois, ontem saí do BES com a certeza que os senhores concordariam com tais taxas. Por uma questão de equidade e honestidade. A minha certeza deriva de um raciocínio simples.

Vamos imaginar a seguinte situação: eu vou à padaria para comprar um pão. O padeiro atende-me muito gentilmente, vende o pão e cobra o serviço de embrulhar ou ensacar o pão, assim como todo e qualquer outro serviço. Além disso impõe-se taxas de. Uma “taxa de acesso ao pão”, outra “taxa por guardar pão quente” e ainda uma “taxa de abertura da padaria”. Tudo com muita cordialidade e muito profissionalismo, claro.

Fazendo uma comparação que talvez os padeiros não concordem, foi o que ocorreu comigo no meu Banco.

Financiei um carro, ou seja, comprei um produto do negócio bancário. Os senhores cobram-me preços de mercado, assim como o padeiro cobra-me o preço de mercado pelo pão.

Entretanto, de forma diferente do padeiro, os senhores não se satisfazem cobrando-me apenas pelo produto que adquiri.

Para ter acesso ao produto do v/. negócio, os senhores cobram-me uma “taxa de abertura de crédito”-equivalente àquela hipotética “taxa de acesso ao pão”, que os senhores certamente achariam um absurdo e se negariam a pagar

Não satisfeitos, para ter acesso ao pão, digo, ao financiamento, fui obrigado a abrir uma conta corrente no v/. Banco. Para que isso fosse possível, os senhores cobram-me uma “taxa de abertura de conta”.

Como só é possível fazer negócios com os senhores depois de abrir uma conta, essa “taxa de abertura de conta” se assemelharia a uma “taxa de abertura de padaria”, pois só é possível fazer negócios com o padeiro, depois de abrir a padaria.

Antigamente os empréstimos bancários eram popularmente conhecidos como “Papagaios”. Para gerir o “papagaio”, alguns gerentes sem escrúpulos cobravam “por fora”, o que era devido. Fiquei com a impressão que o Banco resolveu antecipar-se aos gerentes sem escrúpulos. Agora, ao contrário de “por fora” temos muitos “por dentro”.

Pedi um extracto da minha conta - um único extracto no mês - os senhores cobram-me uma taxa de 1 EUR. Olhando o extracto, descobri uma outra taxa de 5 EUR “para manutenção da conta” - semelhante àquela “taxa de existência da padaria na esquina da rua”.

A surpresa não acabou. Descobri outra taxa de 25 EUR a cada trimestre - uma taxa para manter um limite especial que não me dá nenhum direito. Se eu utilizar o limite especial vou pagar os juros mais altos do mundo. Semelhante àquela “taxa por guardar o pão quente”.

Mas os senhores são insaciáveis.

A prestável funcionária que me atendeu, entregou-me um desdobrável onde sou informado que me cobrarão taxas por todo e qualquer movimento que eu fizer.

Cordialmente, retribuindo tanta gentileza, gostaria de alertar que os senhores se devem ter esquecido de cobrar o ar que respirei enquanto estive nas instalações de v/. Banco.

Por favor, esclareçam-me uma dúvida: até agora não sei se comprei um financiamento ou se vendi a alma?

Depois de eu pagar as taxas correspondentes talvez os senhores me respondam informando, muito cordial e profissionalmente, que um serviço bancário é muito diferente de uma padaria. Que a v/. responsabilidade é muito grande, que existem inúmeras exigências legais, que os riscos do negócio são muito elevados, etc., etc., etc. e que apesar de lamentarem muito e de nada poderem fazer, tudo o que estão a cobrar está devidamente coberto pela lei, regulamentado e autorizado pelo Banco de Portugal. Sei disso, como sei também que existem seguros e garantias legais que protegem o v/. negócio de todo e qualquer risco. Presumo que os riscos de uma padaria, que não conta com o poder de influência dos senhores, talvez sejam muito mais elevados.

Sei que são legais, mas também sei que são imorais. Por mais que estejam protegidos pelas leis, tais taxas são uma imoralidade. O cartel algum dia vai acabar e cá estaremos depois para cobrar da mesma forma.

 

 

[image by Jesse B. Moore]

Justiça Governativa e Distributiva

O governo tem o prazer de informar que todo aqueles que têm iates e embarcações de recreio que através do Artº 29 do Cap. II da Portaria 117-A de 8 de Fevereiro de 2008, beneficiam de gasóleo ao preço do que pagam os armadores e os pescadores. Assim todos os portugueses são iguais perante a Lei, desde que tenham iates… É da mais elementar justiça que os trabalhadores e as empresas que tenham carro a gasóleo o paguem a 1,42€, e os banqueiros e empresários do ‘Compromisso Portugal’ o paguem a 0,80€, e é justo, porque estes não têm culpa que os trabalhadores não comprem iates!!!

 

 

 

[image by wingnut]

Hospital Vila Franca de Xira

Para quem não sabe a minha mãe encontra-se internada a recuperar de uma intervenção cirúrgica no Hospital Reynaldo dos Santos em Vila Franca de Xira. Estar hospitalizada é já de si uma situação negativa, estar hospitalizada em Portugal é pior ainda. Infelizmente, à excepção do cirurgião, temos muita coisa negativa a apontar ao hospital, particularmente ao corpo de enfermagem e auxiliar de assistência médica. A arrogância, o desrespeito, a brutalidade e a má educação proliferam por ali. Mais notas negativas para o serviço de saúde e os seus “profissionais”. fica o aviso e descontentamento. Tomaremos medidas.

[image by guy.p]

Bricandeiras de Juventude

A juventude americana actual teve a infelicidade de não saber crescer num mundo em que as oportunidades estão em aberto e acesso aos bens de consumo de luxo nunca foi tão fácil. A par disso a hollywoodização dos padrões de comportamento tem a particularidade de adulterar a realidade, estimulando os comportamentos desviantes e alternativos. A «cultura juvenil» americana sofre do síndroma do «adquirido». Crescem sem limites, dificuldades e ideais, entregando-se assim ao sabor da corrente dos hábitos complexos das suas gerações.

Ao mesmo tempo, sociedades conservadoras tendem a estimular os desvios juvenis, que filhos de uma globalização de liberdades ilimitadas confundem-na com libertinagem e escolhas sem consequências, para além de preconizarem confrontos sociais e geracionais. Ademais, considerar crimes sexuais a prática de uma sexualidade consensual em menores de 16 anos, constitui uma desadequação e falta de sensibilidade para a realidade da juventude actual. O castigo maior será dado pela vida, quando estas jovens compreenderem que a gravidez não é uma experiência escolar nem se trata de um «reality show». Faz-lhes bem o choque de realismo. [link da notícia.Público]

A Inveja é uma coisa feia!

Depois da derrota de Portugal diante da Alemanha e da também surpreendente eliminação da Croácia pela Turquia, hoje foram os holandeses a ficarem pelo caminho. Pessoal e globalmente, a Holanda era tida como favorita, até porque chegava aos quartos-de-final sem mácula, apresentando um futebol estupendo. No entanto, as surpresas acontecem, e a Rússia de Guus Hiddink, seleccionador nacionalidade holandesa, ofereceu o “milagre russo” aos adeptos. A pergunta que,obviamente, se impõe é: será esta vitória e exibição obras do acaso, isto é, um acontecimento isolado, ou teremos uma Rússia madura até ao fim?

Fim de Ciclo

Luis Filipe Scolari diz adeus à selecção nacional pondo fim a uma experiência com altos e baixos e bastantes traumas. Em jeito de conclusão Scolari uniu os portugueses em torno do futebol e deixou-nos sempre às portas do céu. Jamais serei capaz de engolir a derrota com a Grécia na final do Euro 2004. Acima de tudo Scolari gozou de uma aceitação generalizada, nunca antes atribuída a um seleccionador português. Quando ele diz que não se justifica toda a gente aceita, quando ele perde é sempre um vencedor, quando ele erra é natural, quando ele fala é lei. A imprensa, provinciana, sempre foi conivente com os seus métodos e escolhas. A forma como sai da selecção - com uma eliminação que marca um sem fim de erros repetidos (já deveríamos conhecer a Alemanha de “gingeira” - repõe a veracidade do seu trabalho.

[image by contrapositively]

Erémos os máiores!

Portugal perdeu ontem diante da Alemanha. A derrota não foi todavia uma novidade, nem tão-pouco acabou com uma esperança, com o sonho talvez. Porque a grande essência do sonho é a sua difícil realização. A derrota e a consequente eliminação expôs, a nu, a realidade da selecção nacional: fracas alternativas na baliza, defesa inconstante e cada vez mais dependente de Pepe, meio-campo centrado em Deco (correr por um contrato) e uma frente de ataque presa ao futebol de Cristiano Ronaldo, e acima de tudo espelha a fraca capacidade de gestão de Scolari. Tristes os que sempre se iludiram. Manteve-se também a tradição da época Scolari, sempre que Portugal se encontra a perder não é capaz de dar a volta ao resultado. Causas? Do banco não saem soluções. Scolari é um treinador que se esgotou no tempo, as suas substituições não têm nada de alterações tácticas ou de resposta a estímulos do jogo. Limita-se a retirar um avançado e colocar outro avançado, e por aí fora. Só essa incompetência justifica a substituição de Moutinho por Meireles num momento em que estava a perder por 2×0, para depois retirar o Petit e fazer entrar Postiga e Nuno Gomes dar lugar a Nani. Tardias e sem leitura de jogo. Quanto a Ricardo…para quando no banco?

Adeus Scolari, finalmente!

Um Abraço

O meu grande amigo Francisco atravessa momentos difíceis, com o agravamento da doença do avô. Apesar da dor que advém da inevitabilidade do devir, do natural ciclo da vida, ele pode (e deve) sentir-se priveligiado. É um dos últimos que conviveu de perto com os avós, que cresceu acarinhado por aqueles sábios da vida. E ao amá-lo de perto fez os avós sentirem-se úteis, parte da família. E isso é uma raridade.

[image by desiretofire]

O País Porreiro, de novo

Se José Sócrates continua a ter uma visão ultra-positiva do futuro do país - não fosse ele o chefe do governo - já os portugueses não vão em cantigas fáceis. Segundo a «Marktest» grande parte dos portugueses não tem grandes esperanças em melhorias. E pode um governo argumentar o que quiser porque a motivação e o desânimo sociais sempre foram determinantes da construção económica.

Que Não Sirva de Desculpa

Portugal defronta amanhã, em Basileia, a Alemanha, num jogo a contar para os quartos-de-final do Euro 2008. Se Cristiano Ronaldo se afirma confiante já Nuno Gomes diz não gostar do novo relvado. Como ele não marca golos, de maneira nenhuma, pode ser que o desagrado funcione como psicologia invertida.

Falou e Disse

Mário Soares assina uma interessante crónica no «Diário de Notícias». A meio caminho afirma o seguinte:

Claro que a crise global não é só energética e alimentar - as duas que mais afectam os cidadãos comuns. É também política, financeira, económica, social e ambiental. Uma crise de civilização, estrutural, que teve o seu epicentro na América de Bush - que está a chegar ao fim do seu mandato - e que começa a repercutir-se na Europa e nomeadamente na nossa vizinha Espanha.

Vai chegar cá. Ninguém tenha ilusões. As pessoas conscientes estão a perceber que é inevitável que assim aconteça. Mas é preciso fazer-lhes frente, com coragem, inteligência e bom senso. É, por isso, que todos começaram a manifestar preocupações sociais (que muitos antes não tinham) e ninguém já se atreve a reclamar - como no passado recente - “menos Estado”, “mais privatizações de sectores públicos” e a apostar na globalização neoliberal, cujos desastrosos resultados estão à vista. [link]

Adieu, Adieu

A Itália venceu a França, dando razão aos que afirmam que a história se repete. Se o futebol também é uma roleta cíclica então os franceses ganharam um ódio de estimação: a Itália. Desportivamente, claro. À excepção da brilhante Holanda, o “grupo da morte” foi na realidade o “grupo do aborrecimento”. Paupérrimas as selecções transalpina e gaulesa. Uma França à procura de si mesma, desestruturada e muito mal comandada por um arrogante sem nexo, Raymond Domenech, e uma Itália inconsistente, órfã de um organizador de jogo com a ausência de Totti. Vêm aí os quartos-de-final, sem grande promessa de brilhantismos.

Incontestável

Franck Ribéry, internacional francês, admitiu o mais óbvio: Zidane faz muito falta à selecção francesa. Dizer o contrário seria negar o óbvio. Durante uma década a selecção gaulesa viveu de um colectivo bem estruturado mas comandado por um cérebro raro de origem argelina. Zidane pensava e executava mais rápido que os outros. A herança do camisa 10 continua por encontrar legítimo herdeiro. Toulalan é um jogador de qualidade mas nem nos melhores dias se compara a Zidane. Zinédine Zidane era diferente.