Archive for Março, 2008

PROFISSÃO INDESEJADA: O ensino, que outrora era tida como uma profissão de prestígio, altruísta até, é hoje das carreiras menos desejadas. Há indisciplina dos alunos, à falta de compromisso dos encarregados de educação, junta-se-lhes um governo que não convence ninguém. A reforma antecipada tornou-se a alternativa mais procurada.É triste.

EMBANDEIRAR: A descida do IVA de 21 por cento para 20 por cento, tem servido de bandeira política a José Sócrates. Um governo que de «esquerda» tem pouca coisa, dá uma esmola como quem dá o euromilhões. O primeiro ministro português trata a pobreza em Portugal com uma total falta de sensibilidade governativa. Há nele toda uma postura social inócua. Falando aos jornalistas, a propósito da descida do IVA, declarou: “é sempre desprezível para quem é rico, mas para quem é pobre não é desprezível“. Pois, de facto, 1% fará uma diferença abismal na redução do endividamento das famílias portuguesas. Na verdade, José Sócrates, limitou a aplicar uma velha jogada política: dar um passo rumo ao povo em época de pré-campanha. E como em tudo, exacerba as medidas mais ou menos positivas do seu governo. Embandeira em arco, seduzindo os media que ao sabor da corrente actuam pró-governo.

CURIOSO:quem ache que por ler um post, literalmente à sua maneira, fica a conhecer a pessoa que o escreve. Enche o peito de entusiasmo e “caga sentenças” sobre opiniões como quem analisa psicologicamente o autor. Sim conheço a obra de Gilberto Freyre. Sim conheço os afro-descendentes e as suas tradições (Iylê Axé Iyá Nassô Oká diz-lhe alguma coisa?). E se pensa que estou a fazer demagogia de direita então é porque a presunção é só sua. Fiquemos-nos por aqui. Cada qual no seu blogue. Não tenho tempo a perder com quem tem ideias pré-concebidas. A Cultura Afro-Brasileira agradece que eu não perca esse tempo.
::adenda:: de toda aquela análise retórica o que mais enerva é o tratamento por “João”, como se de facto privasse da minha companhia. Não vale argumentar servindo aos leitores falsas ideias. Já agora “disparates” são as crises de meia-idade.

AS DITADURAS LATINAS: O meu amigo Francisco lançou-me o desafio de explicar as razões da tradição sul-americana para os governos ditatoriais. É substancial tomar a parte pelo todo, todavia creio existirem linhas gerais aplicáveis ao conjunto dos países da América do Sul.

(1). ausência de uma quadro de referências — sabendo que a história destes países, enquanto tal, deriva do período designado por «descobrimentos», é possível admitir como facto que a experiência colonialista originou um vazio de representações governativas democráticas, isto é, o quadro referencial de governação difundido foi o da relação entre o dominador e o dominado. As representações de poder jogaram-se não só nos planos político-governativos, como acima de tudo nos contextos sociais, originando uma memória colectiva repressiva. O modelo de governação foi autoritário.

(2). diversidade cultural, segregação racial e ideologia de naçãoa colonização viu-se a braços com contingentes populacionais extremamente diversificados aos quais se vieram juntar novos ethos, novas representações sociais e culturais com a mão-de-obra escrava. Esta diversidade cultural teve de ser enquadrada numa estrutura e numa lógica social externa, isto é, segundo moldes ocidentais-coloniais. Obviamente que tal processo teria de originar conflitos estruturais, reprimidos por um mecanismo escravocrata e genocida. Esta mutilação da diversidade cultural manteve-se e acentuou-se no período pós-colonialista, em que o projecto de nação traçado pelas elites económicas e sociais não se compadecia com a presença de mestiços e afro-descendentes. A «ideologia de nação» criada nos burgos da alta sociedade não encontrava repercussão na realidade social. Deste conflito entre projecto e real originou-se a segregação racial.

(3). instabilidade económica — o fim da escravatura pôs termo a um mecanismo económico assente numa mão-de-obra volumosa e de baixo custo. Ao mesmo tempo colocou nas cidades populações mestiças vazias de quadros de referência, de formação intelectual e qualificação laboral. Sem rendimentos e sem qualificação tornaram-se excedentes de um regime colonialista que não deixou mecanismos de auto-sustentação. A carência desses mesmos mecanismos deixou os países a braços com crises económicas complexas.
(4). classes dominantes — essas elites económicas e sociais que fecundaram a «ideologia de nação» são as mesmas que produzem as elites políticas. Neste sentido, há uma promiscuidade entre as classes políticas e os lobbies económicos e militares. Dessa promiscuidade nasce a corrupção governativa.
Estes quatro factores conjugados originam um caldeirão político assente precisamente na desagregação social e na incapacidade de gerir conflitos derivados de antigos mecanismos de representação do poder. Ao mesmo tempo, a experiência histórica, diz-nos que em períodos de crise política, económica e social, os indivíduos tendem a abdicar das suas liberdades e de parte dos seus direitos sociais em troca de estabilidade. Esse negócio é o palco da emergência dos regimes autoritários. No caso da América Latina, países sem consensos sociais, a articulação da diversidade tende a ser feita por intermédio de mecanismos de poder e repressão. São modelos que se deveriam ter esgotado por si mesmos mas devido a problemas históricos mal resolvidos continuam a representar alternativas possíveis.

REGRESSO AO SERVIÇO PÚBLICO: Celebrando o «Dia Mundial do Teatro», a RTP faz uma viagem com trinta anos e recupera o conceito de «serviço público», ao emitir teatro em directo. “O dia das Mentiras”, baseado em duas comédias de Almeida Garret, adaptadas por Rui Mendes, com encenação de Fernando Gomes, sobe ao palco do Teatro Trindade e entra pela casa dos portugueses à hora das telenovelas. Pese o desafio humano e de equipamento que o momento representará, é inegável que a RTP tem uma excelente oportunidade de revitalizar a televisão formadora, mesmo não esquecendo o conceito de entretenimento. Este exercício de revitalização do «serviço público» pode finalmente pôr cobro ao mito de que a televisão portuguesa vive de infoentretenimento, é que o horário nobre da televisão é ocupado com programas de baixíssima qualidade e com uma massiva emissão de telenovelas. Não confundamos produção nacional de telenovelas com cultura de massas. É perigoso.

FAZ SENTIDO: O caso «Carolina Michaelis» continua na ordem do dia, quanto mais não seja porque representa uma excelente oportunidade para a Direcção Regional de Educação do Norte (DREN) mostrar serviço. Chega-nos notícia de que tanto a jovem agressora quanto o “operador de câmera” serão transferidos de estabelecimento de ensino. Embora o jovem não tenha participado activamente no sucedido não deixou de revelar uma tremenda falta de civismo ao registar em video o momento da agressão. Segunda-feira, a professora vai regressar à escola e à turma do 9ºC que Patrícia frequentava. A turma é maioritariamente composta por alunos que foram transferidos das escolas do Cerco do Porto, de Custóias e do Colégio Universal, alguns deles por questões disciplinares.

BLOG REVIEW: Atrasados, mas ficam aqui os parabéns ao Paulo Querido pelos cinco anos de blogosfera. A blogosfera portuguesa é hoje mais rica, mais diversificada, mais eloquente, graças a ele? Certamente que sim!

VER-SE GREGO, continua a ser o destino de Luis Filipe Scolari e da mal-fadada selecção nacional. A terceira derrota da era Scolari diante da selecção helénica teve o condão de pôr à mostra as fragilidades da equipa das quinas. Não só porque continua a revelar um desacerto ofensivo, que nem o golo de Nuno Gomes conseguiu disfarçar, como ainda, o ensaio de hoje, veio provar que a selecção de todos nós (ou será melhor dizer de Scolari e amigos?) perdeu há muito a réstia de magia, magia essa amplamente dependente da varinha de condão de Cristiano Ronaldo. É triste, não só porque Scolari ainda não viu que perdeu há muito a sua credibilidade como ainda os jogadores voltaram a demonstrar uma total falta de respeito pelos adeptos emigrantes, que sofrem com as cores de Portugal bem mais do que eles. Medíocre.

QUAL CPLP? Da experiência acumulada durante um ano junto da CPLP, torna-se lícito perguntar se ela existe de facto ou se na verdade se apresenta como um «clube de cavalheiros», uma espécie de recriação dos clubes burgueses do século XIX? Isto porque, há excepção da Missão do Brasil à CPLP, as demais embaixadas não passam de assentos diplomáticos inócuos. Neste capítulo Portugal tem particulares responsabilidades. A lusofonia, tema fundador da CPLP, nunca foi alvo de políticas culturais e diplomáticas reais. A CPLP é inoperante e não são projectos militares que resolvem a passividade cultural dos seus membros. Aliás, nem a própria comunicação externa da organização funciona. A criação de uma NATO lusófona parece mais uma medida de encobrir falhas estruturais do que um projecto real e significativo. É fraco.

ESCOLARIDADE OBRIGATÓRIA: O caso de agressão na Escola Secundária Carolina Michaëlis, no Porto, sucedido amplamente divulgado pela comunicação social via youtube, trouxe de novo à baila a questão da educação (ou falta dela) juvenil portuguesa. O facto de a aluna em questão ser levada hoje a tribunal não esconde o problema, nem tão pouco servirá de «castigo exemplar». Já antes afirmei que há uma desresponsabilização paternal no processo educativo, cujas consequências estão à vista de todos: falta de respeito, de civismo e de consciência dos limites. Entre as medidas possíveis, proponho que seja feita uma avaliação anual do comportamento escolar de cada aluno, sendo que a par do procedimento avaliativo, seria um meio de selecção natural. Resultaria da aplicação do modelo francês, a escola para os mais aptos, sendo que por mais aptos se entenderia os mais aplicados e cumpridores.

PÚBLICOSFERA: As implicações mediáticas da blogosfera no espaço dos media tradicionais e, particularmente, na construção dos media digitais — quer estes sejam estenções de meios tradicionais ou não — são inegáveis. Já foram escritos, pelo menos, centenas de posts sobre o sucedido. No entanto, estes media formais carecem de afirmações públicas de ligação directa à blogosfera, quando é do conhecido da maioria dos bloggers que a blogosfera se tornou o “pronto-socorro” dos profissionais do jornalismo em momentos de vazio de ideias. Contudo, o jornal «Público», grande referência nos conteúdos deste blogue, volta a dar mostras de consciência cibernética (talvez pela parte de António Granado) ao passar a conter ligação directa para os blogues que as comentam, através de uma nova ferramenta que hoje entra em funcionamento. O objectivo desta medida é ajudar “na difusão das conversas que se geram na blogosfera sobre as notícias, transformando os níveis de participação no próprio site”, explica um comunicado da empresa. Não só é uma mostra de grande vitalidade do «Público» como é sinal de que não teme a blogosfera, antes partilha com ela a vivência da informação imediata.

A LÓGICA DA BATATA: O projecto de requalificação do Foz Côa poderá não passar de mais uma boa ideia que não verá a luz do dia, isto por causa de alterações nas regras relativas aos apoios comunitários. Ora, a situação não só é ridícula como espelha bem que em Portugal tudo é feito “em cima do joelho” e vai sendo alterado ao sabor dos acontecimentos. Obviamente que, entre outras áreas, a cultura fica sempre a perder. A gestão política portuguesa é pautada por uma experiência lógica agrária: a lógica da batata.

BLUE CAR: Um filme alternativo ao cinema hollywoodesco que nos traz o outro lado da criação literária, a busca pela palavra que espelhe na perfeição a emoção, que cole num momento toda a eternidade. Simultaneamente, «Blue Car» é uma viagem bem real por uma América feita de gente simples, verdadeira, sem o brilho das luzes citadinas, que sofre, que crê, que desespera e que procura no meio do caos encontrar um sentido de vida. Karen Moncrieff oferece ao cinéfilos um filme a meio caminho da qualidade inegável, mas que coloca Agnes Bruckner nas bocas dos bastidores do cinema americano.