Archive for Fevereiro, 2008

BLOG REVIEW: Os blasfemos começaram há 4 anos a enviar postas para o ciberespaço. Naquela altura não se tinha, certamente, a noção do impacto que os blogues teriam no ciberespaço português, transpondo ainda as barreiras digitais, influenciando os media, a esfera política e a própria criação literária.

São 3 mil leitores por dia a consagrar cada vez aquele estaminé blogosférico. E como a antiguidade ainda é um posto (e na blogosfera antiguidade confunde-se com qualidade) o «Blasfémias» continua a olhar os restantes de um pedestal inusitado. Os parabéns a quem influenciou o modo de estar na blogosfera portuguesa.

1% CONTA? Ser deficiente invisual continua a representar um entrave a uma vida com o mínimo de dignidade e acesso a infraestruturas. E se isto é uma questão generalizada, em Portugal, obrigatoriamente, tem de ganhar contornos maiores.

Em Portugal um por cento da população é cega, o que perfaz 35 mil cegos na cidade de Lisboa. Mas a verdade é que não vemos, nem de perto, tantos cegos nas ruas da cidade. É sinal de que a maioria deles continua a fechar-se em casa. E porquê? Porque continuam sem resposta para as suas necessidades que não passe pela ajuda alheia momentânea. E até quando?

NÉLSON FREIRE: Assisti na Embaixada do Brasil em Lisboa ao documentário sobre o maior pianista do mundo, o brasileiro Nélson Freire. Um prodígio estrondoso. Vale a pena ler a biografia.

|||UNFAITHFUL AMERICA: Na América há poucas coisas que perturbam tanto as pessoas do que a religião. Apesar de cidades como Las Vegas ou New York estarem pigmentadas por cidadãos de multiplas identidades e bases religiosas, a maioria dos cidadãos do vasto império do norte, têm na religião uma questão tabu. E sendo tabu é também central. Nada afecta os hipersensíveis e pobres espíritos americanos mais do que a diversidade religiosa que possa imperar por ali. É como se o anti-Cristo morasse em cada esquina.
Só um temor e uma repudiação à diversidade religiosa pode justificar que uma fotografia de Barack Obama trajando à maneira Somali causasse tamanho ruído de fundo político. A fotografia em questão foi tirada em 2006, quando o senador de Illinois visitava a província de Wajir, no nordeste do Quénia, de onde são oriundos os seus antepassados. Nessa altura posou para uma fotografia acompanhado do xeque Mahmed Hissan.

Até pode não ter sido o gabinete de Hillary Clinton a enviar a fotografia para os media, aliás tenho um palpite que aponta mais para os lados de McCain, mas a verdade é que esta pretende inegavelmente promover um clima de suspeição para com Obama. Na América um candidato islâmico, especialmente depois do 11/9, tem tantas hipóteses de chegar a Presidente quanto qualquer taxista nova-iorquino, no mínimo.

Aliás, a suspeição de que a fotografia terá origem no gabinete de John McCain trata-se disso mesmo, uma mera suspeita, uma vez que o candidato republicano repudiu um apoiante seu que se referiu a Obama usando o seu nome do meio: Hussein.

Para ajudar à festa, que é como quem diz para dificultar a vida a Barack Obama, o líder da Nação Islâmica, Louis Farrakhan, discursando numa convenção em Chicago, manifestou o seu apoio a Obama, considerando que o candidato democrata representa uma “esperança do mundo inteiro de que a América mude para melhor”, apesar de Obama ter denunciado por diversas vezes as posições anti-semitas da organização liderada por Farrakhan.

Em suma, os próximos tempos serão difíceis para Barack Obama, mesmo que queiramos acreditar nas open minds americanas. Distanciar-se do islamismo pode ser uma faca de dois gumes: por um lado pode perder eleitores islâmicos e aqueles que o olhavam como modelo de diversidade religiosa, por outro pode significar a derradeira hipótese de se manter na corrida à Casa Branca, mantendo intacta a sua imagem.


→ Já agora gostei da expressão dirty tricks usada pelo Nuno Goveia.

→ O título de Daniel Oliveira sobre o sucedido é no mínimo curioso.

BLOG REVIEW: A partir do «Diplomata» cheguei até ao «Complexidade e Contradição». Apesar de ter sido uma piada a propósito dos óscares penso que o seu autor está equivocado, o óscar para melhor argumento original deveria ser entregue aos speech writers de George W. Bush, assim como o referido presidente deveria receber o óscar de melhor actor de comédia.

|||O BARACK DE RAP: Escreve Ricardo Araújo Pereira na habitual crónica da «Visão», «Boca do Inferno»:


(…) No entanto, além de transformar a minha vida, a eleição de Barack Obama pode acarretar outras mudanças de menor importância. Por exemplo, pode transformar o nosso planeta. Se Obama for eleito, durante uns anos viveremos num mundo surpreendente em que o Presidente dos Estados Unidos da América se chama Barack Hussein Obama, enquanto, por exemplo, no Gana, o Presidente é um tipo chamado John (a sério, acabei de verificar). (…) Por tudo isto, desejo que aconteça a Barack Obama o mesmo que aconteceu a Kennedy: que vença as eleições e se torne Presidente. Ou, na pior das hipóteses, que lhe aconteça o mesmo que aconteceu a Bush: que perca as eleições e se torne Presidente. [link]

|||O BRASIL EM CONTRA-MÃO: Que João Pereira Coutinho (JPC) é um conservador assumido já não é novidade nenhuma, da mesma forma que não deixa de ser factual que tem uma capacidade prosaica de se exprimir, isso até Joana Amaral Dias assume. Agora o que a mim não me convence é que João Pereira Coutinho seja pessoa indicada para falar do Brasil. Acima de tudo porque ele ainda não entendeu que o Brasil não é país, é uma multiplicidade de factores, de realidades, e mais do que tudo isso, o Brasil são modos de estar.
JPC assume-se um fã de Diogo Mainardi, alguém que se tem dedicado a promover o descrédito do Presidente Lula. Para JPC e Diogo Mainardi o país estaria melhor sem Lula, fosse quem fosse o presidente. Antes de mais parece que o principal é derrubar Lula não encontrar substituto à altura. Da entrevista publicada na sua rúbrica na «Folha de São Paulo», vale a pena realçar uma passagem que resume todo o pensamento Mainardi - Coutinho:

(JPC) E o Brasil? Seria capaz de eleger um negro?

(DM) O Brasil seria capaz de eleger uma anta.

O que para estes conservadores, com projecto de um Brasil very british, seria preferível. Um país onde a identidade africana é elemento marcante da cultura do país, é para estes conservadores um país indesejável. O fundamental é manter a boa e velha segregação, os negros lá longe — são bandidos, que se matem. Quem quer um presidente que promove a redescoberta da memória africana, que procura promover políticas de integração social e redução das assimetriais de cor?

João Pereira Coutinho e Diogo Mainardi acabam por ser, eles mesmo, parte do grande entrave à democracia racial brasileira. Isso não lhes podemos perdoar. Aposto que a cara Selenia concorda comigo.


(foto de Tatiana Cardeal)

HÁ COISAS HEREDITÁRIAS: A renúncia de Fidel Castro ao fim de 49 anos de governo, motivada por questões de saúde, trouxe uma serena sucessão. Raúl Castro Ruz, irmão mais novo de Fidel, e sempre o número dois do governo, assumiu as funções. Entretanto Fidel Castro mantém a liderança do Partido Comunista Cubano, o partido único do país. Em Cuba nada de novo.

|||A EXPANSÃO DA REVOLUÇÃO INDUSTRIAL:

[O COMÉRCIO INTERNACIONAL: trocas multilaterais e efeitos de arrastamento]

O comércio internacional registou um crescimento assinalável com o século XIX. O desenvolvimento operado ao nível do comércio internacional caracterizou-se pela multilateralidade das trocas e pela interdependência das economias participantes, gerando um efeito de arrastamento particularmente verificável nas economias menos desenvolvidas.

Enquanto a Europa se ia tornando especializada numa massiva produção industrial surgiu a necessidade de desenvolver mercados de colocação dos produtos produzidos na Europa, mercados esses que teriam de ser extra-fronteiras europeias. Esses mercados de excoamento de produção europeia eram também os grandes fornecedores das matérias-primas e dos produtos alimentares ao Velho Continente e Estados Unidos.

Este multilateralismo comercial teve na base do surgimento da interdependência económica, caracterizando-se pela existência de circuitos comerciais diversificados, onde se balançavam défices com excedentes. A Europa era, contudo, o palco central deste comércio à escala mundial, onde se jogavam as trocas entre produtos manufacturados e matérias-primas.


No que concerne às políticas económicas assistiu-se a uma alteração entre proteccionismo e livre-cambismo. O primeiro procurava proteger as indústrias nacionais através da aplicação de taxas aduaneiras à concorrência estrangeira. O segundo caso foi adoptado pela Inglaterra que reduziu e por vezes aboliu as referidas taxas, traduzindo-se numa baixa de preços. O sucesso da medida influenciou outros países europeus e os Estados Unidos. Apartir de 18970/80 a maioria dos países regressou ao proteccionismo alegando dificildades económicas.

[HEGEMONIA INGLESA E NOVAS POTÊNCIAS]

No final do século XIX a Inglaterra detém a hegemonia económica mundial aliçercada pela capacidade superior em termos de máquinas a vapor, liderança na produção de carvão, ferro e aço; detenção da maior frota comercial do globo; é o principal exportador de têxteis, máquina e bens de equipamento; possui extensa densidade ferroviária; maior volume de investimentos no estrangeiro e foi a maior beneficiada com a Conferência de Berlim (1884) que dividiu o continente africano.

A segunda metade do século XIX corresponde ao crescimento económico e industrial dos Estados Unidos, facilitado pela abundante presença de recursos naturais, pela chegada massiva de imigrantes e pela qualificação da mão-de-obra. Instalaram-se fábricas de lã e algodão, carvão e aço e desenvolveu-se a indústria eléctrica. O desenvolvimento da organização do trabalho originaram um crescimento tal que tornaram os EUA a principal potência mundial no início do século XX.

Na mesma altura — segunda metade do século XIX — o Japão empreendia o seu processo de industrialização, o conhecido período Meiji (das luzes), baseando-se no modelo ocidental, importando para isso técnicos estrangeiros que dirigia uma abundante e disciplinada mão-de-obra.

NÃO HÁ CANUDO QUE NOS VALHA: Começa a ser uma pergunta de auto-reflexão. Apesar da afirmação generalizada de que estudar compensa, isto é, que a formação superior continua a ser uma mais-valia no acesso ao mercado de trabalho, a verdade é que depende da área de formação. Para que queremos em Portugal mais advogados? Para servirem em cafés e restaurantes?
Obviamente que a taxa de desemprego varia consoante o estabelecimento de ensino frequentado, no entanto, há saídas profissionais que não auguram bons presságios e que começam a assumir-se como escolhas de risco. São os casos da Comunicação Social e Jornalismo, Psicologia, Serviço Social, Direito, Educação e até mesmo a enfermagem e áreas ligadas às economias.

O governo de José Sócrates orgulha-se de afirmar que em 2007 acederam ao ensino superior mais 67 mil estudantes (mais coisa menos coisa), números que na verdade não serão traduzidos em oportunidades de emprego. A oferta de estágios profissionais continua a não dar vazão ao crescente número da procura. Ao mesmo tempo, e como consequência, cada vez mais jovens licenciados procuram emprego no estrangeiro.

O curioso é vermos enfermagem na lista das licenciaturas que contribuem para engrossar as fileiras do desemprego. A pergunta tem de persistir: se temos tantos enfermeiros e enfermeiras estrangeiros em Portugal e se temos enfermeiros portugueses no desemprego, onde está presa a lógica? Calcula-se que nos valores salariais. Assim não há canudo que nos valha.