Archive for Janeiro, 2008

IMPRENSAR: Um sintoma de que os media em Portugal se encontram longe de viver dias de grande eloquência é a falta de cronistas e, pior, a sensaborona qualidade dos existentes. Grande parte dos nossos opinion makers aproveitam as páginas dos jornais e revistas para exorcizar os seus fantasmas ao mesmo tempo que convencem o povo de que são eles os detentores da perspicaz interpretação do real. E depois é precisamente a falta de um número considerável de comentadores (falta também justificada pelos meandros dos lóbis jornalísticos e políticos) que leva a uma repetição destes pelos pasquins existentes. Só tamanho vazio opinativo justifica que João César das Neves comente no «Diário de Notícias» e no «Destak». É verdade que os públicos-alvo dos referidos jornais são manifestamente diferentes, mas a questão não é essa, nem pode ser. Partilhar comentadores é quase tão irreal quanto uma editora partilhar o seu best-seller.

CINEMA PORTUGUÊS: O povo português tem um divórcio natural com o cinema nacional. Os filmes é verdade que só muito recentemente têm oferecido alguma qualidade, e a tradição da produção nacional e do consumo fiel perdeu-se lá pelo Pátio das Cantigas. Se a tal juntarmos a oferta cinematográfica pós-25 de Abril fica claro o porquê desta cultura de ausência.

No entanto há excepções. O filme de António-Pedro Vasconcelos, “CallGirl”, protagonizado por Soraia Chaves, Nicolau Breyner e Ivo Canelas, contabilizou 146.466 espectadores e cerca de 661 mil euros de receita bruta de bilheteira. Podem apresentar-se um rol de razões para o sucesso, mas no fim sobram sempre uma: Soraia Chaves num papel sexual. Quando a temática do filme é o sexo então o mesmo pode até ser legendado em hebraico, isso não interessa nada, ao fim e ao cabo o que as pessoas vão lá ver é Soraia Chaves. Há dúvidas?

FIEL À RAZÃO: João Pereira Coutinho escreveu aqui há uns tempos na Atlântico edição impressa, que por muito que tentasse ser de esquerda não conseguia; a propósito do assalto que foi vítima em São Paulo, Brasil. Embora não partilhe dos valores ideológicos perfilhados por João Pereira Coutinho (JPC), não tenho por hábito trocar a razão pela ideologia. Não entendo que com tal afirmação JPC esteja a assumir-se como racista, longe de entender as suas palavras como tal; creio, isso sim, que JPC nos tenta dizer que a criminalidade resulta muitas vezes de níveis de desresponsabilização étnica e de uma política de imigração descontrolada, reforço descontrolada porque não sou contra a imigração per si, afinal, a emigração faz parte da história do nosso país. Agora, há que não confundir imigração como possibilidade de delinquência fácil. E isto é o rescaldo da nossa incoerente política de fronteiras.
Há ainda que dar razão a quem critica — e neste ponto o Bloco de Esquerda tem particular responsabilidade — a política social levada a cabo junto dos bairros clandestinos, vulgarmente definidas por “barracas”. Estas políticas são, contrariamente ao que se pensa, descriminatórias. Elas não descriminam os imigrantes de antigas colónicas, ciganos ou imigrantes novos, elas descriminam sim os portugueses. Porque motivo são os demais alvo de tantas facilidades e os cidadãos que pagam impostos não? Porque o abono de família é maior para indivíduos de etnia cigana? Porque há tratamento diferencial hospitalar para imigrantes de leste?

Estas e outras perguntas ficam sem resposta. E é por essas e por outras que a direita têm legitimidade política. Ora bolas.

BLOGACTIVIDADE: A caríssima MCA do blogue «A Biblioteca de Jacinto» nomeou o simplório «Kontrastes 3.0» para o prémio de proximidade blogosférica: “É um blogue muito bom, sim senhora!“. Segundo palavras da mesma, as nomeações têm por objectivo “promover a amizade e interacção na blogosfera”, o que só por si são ideais valiosos. Assim sendo, cabe-me nomear outros cinco bloggers como blogues muito bons, sim senhora. Seguem os nomeados:

→ «Kontratempos» de Tiago Barbosa Ribeiro

→ «Em Semicírculo» de Isabel Salema Morgado

→ «O Jumento»

→ «Abafos e Desabafos» de Magnolia

→ «Ação Humana» de Guilherme Roesler

ENTROPIA JUDICIAL: Se há coisa que não falta ao (des)governo de José Sócrates é o «banditismo legal». A Ordem dos Advogados está em “pé de guerra” mas o povo não sabe de nada. A tradição judicial daqui e de além-mar diz que quem não tem posses para contratar um advogado lhe será nomeado um pelo Ministério Público. Ora, se o Governo decide que os cidadãos que não têm condições financeiras para contratar um advogado também não terão um nomeado pelo MP, ficamos com a sensação que isto está parecido com o fascismo. Quem governa nas entrelinhas é o capital enquanto o Governo vai roubando aos pobres para facilitar a vida aos ricos. Quem será então o advogado do diabo?

A FÓRMULA DE DEUS: Do mesmo autor de A Filha do Capitão, Codex 632 e agora do Sétimo Selo, A Fórmula de Deus é um livro que nos coloca no centro do programa nuclear iraniano, aquele programa que o presidente Ahmadinejad teima em apelidar de “pacífico”, ao mesmo tempo que nos dá conta das mais recentes descobertas científicas. A prova da existência de Deus como uma inteligência geradora de vida e do cosmos é uma noção arrojada, embora carregada de sentido, que vem colocar em causa não a fé cristã mas a estrutura montada em torno desta: a Igreja dos Homens.

Há contudo que fazer uma chamada de atenção. Pese toda a qualidade dos argumentos de José Rodrigues dos Santos, a notória pesquisa realizada, a minociosa exposição, há no Codex 632 e n’A Fórmula de Deus uma estrutura narrativa, uma caracterização das personagens e um enlace em tudo semelhante à escrita de Dan Brown, autor d’O Código Da Vinci, Anjos & Demónios, entre outros. A criptanálise, a relação entre uma personagem masculina e outra feminina e o desvendar de um mistério, colocam a escrita de José Rodrigues dos Santos numa categoria de romance moderno, com uma narração rápida e que prende o leitor, em torno de espaços contemporâneos e personagens realistas.

José Rodrigues dos Santos é, cada vez mais, um nome maior da literatura portuguesa, que prima por não ser light sem deixar de ser cativante, que não procura o romance fácil e sem informação, é um caso de literatura de infoentretenimento.

No fim do silêncio está a resposta,
No fim dos nossos dias está a morte.
No fim da nossa vida está o início.”

|||68 ANOS: Segundo o «Diário Económico», quem entrar no mercado de trabalho este ano terá de trabalhar até aos 68 anos. Esta medida assenta no pressuposto do aumento da esperança média de vida (um ano a cada década) o que permite ao Governo calcular um valor médio de capacidade de exploração do cidadão. Contudo, há um factor que ficou por incluir nos cálculos: a qualidade do sistema de saúde, factor que poderá ser determinante no índice de capacidade per capita.
Segundo estudo da Fidelity International os portugueses são dos que menos poupam para a reforma. Não se trata de uma questão de consciência, como sempre se quer fazer crer, trata-se sim de uma questão de fazer face à vida. Com governos como este é natural que não haja quem seja capaz de descontar para a reforma.

Entretanto nas notícias dão-nos conta que mãe e filho deficiente sobrevivem com 300 euros por mês. É sem dúvida uma fortuna senhor Primeiro Ministro.

SÁBADO DE PACHECO: Comprei a «Sábado» graças ao seu tema de fundo “as novas festas de sexo e drogas aos 14 anos”. Entretanto o artigo de Pacheco Pereira sobre o aeroporto de Alcochete chamou-me a atenção. Intitulou-o, Pacheco Pereira, de “Um espécie de decisão”.

O Governo deicidiu para já, que o novo aeroporto será em Alcochete. Escrevo “para já” porque esta é a segunda decisão apresentada como sendo absoluta, total, definitiva, para todos os séculos. A primeira foi a Ota, em que estava tudo decidido, tudo resolvido (…)

(…) Quando, há poucos dias, a pretexto de uma qualquer outra decisão, o ministro das Obras Públicas afirmou do palanque em que falava que com ele as decisões eram para se manter, a circunspecta sala veio abaixo à gargalhada. O ministro ficou surpreendido, depois perplexo e incomodado e tentou explicar-se. (…) Há de facto uma grande injustiça em deixar na sombra o facto de que José Sócrates foi ainda mais peremptório do que Mário Lino, disse mais “jamais” do que ele, e é o primeiro e último responsável pelo desperdício que a teimosia com a Ota fez pagar e vai fazer pagar ao País.

(…) O programa da RTP de Fátima Campos Ferreira tem muitos defeitos, alguns graves. É muitas vezez “prós e prós”, às vezes em matérias suspeitas de governamentalização, as escolhas que não são resultado de recusas tendem a favorecer o poder, e tem um modelo de gritantismo que prejudica a discussão das questões…

Era destas matérias que o «Abrupto» deveria ser feito, e não de fotos que qualquer um pode tirar, e de egocêntrismos desnecessários e incongruentes.

|||OBRIGADO: Queria agradecer à blogosfera pelos zero comentários e zero e-mails de apoio perante o internamento da minha mãe. A todos um obrigado pelo silêncio.

|||BLOGUE A SORO: Devido ao internamento de urgência da minha mãe o «KØNTRÅSTËS 3.0» encontra-se temporariamente em estado de recobro. Conto voltar em breve, talvez lá para segunda-feira, sempre em ritmo lento. Obrigado pela compreensão.

MEGAFÓNICOS [1]:

As afrontosas injustiças sociais conduzem as pessoas a um cada vez maior afastamento do acto cívico e ao desprezo repugnante pelos políticos.

# Baptista-Bastos in «Diário de Notícias»

|||MEIA-HORA: Passei ontem a noite nas urgências do Hospital Curry Cabral (que serviu também para confirmar que o nosso sistema de saúde é uma fantochada), local onde me chegou às mãos o jornal diário gratuito «Meia Hora». Chamou-me a atenção o artigo do director do referido diário, Sérgio H. Coimbra, intitulado “Jesus Cristo tem de passar por Espanha (e por aqui também)”.
No domingo de celebração da Sagrada Família, o padre de Vila Nova de Milfontes aproveitou a homilia para uma cruzada anticristã. Disse, a uma audiência que incluía crianças e jovens, que os problemas da instituição “família” se devem aos homossexuais. Argumentou mesmo, por palavras próximas destas, que a homossexualidade não é natural; natural é só a obra de Deus! Ora bem, se Deus não criou os homossexuais então não sei quem os criou, porque Deus, recordo, é o Criador de todas as coisas, (e nenhuma delas antinatural). Ao receber lições de cristandade, aprendi sermos todos filhos Dele, nós pretos ou brancos, nós árabes ou judeus, nós heterossexuais ou homossexuais. (…) Porque mais que custe ao pároco de Milfontes, se Cristo estivesse vivo em carne e osso, rezava hoje mais depressa junto da comunidade gay e lésbica perseguida pela maioria social do que junto a si, que naquele dia fez de fariseu. (…) A Igreja pode não aceitar a homossexualidade, mas culpá-la do fracasso do matrimónio e da falta de filhos é ir muito longe. (…)

Entretanto lembrei-me que Milfontes é a tua terra, Chico. E sem dúvida que é um artigo que interessará aos autores de «Renas e Veados» e «Assumidamente».

|||BRASIL EXPORTADO: Segundo estudo realizado em Espanha 70% (setenta por cento) da prostituição masculina é de origem brasileira dos quais 75 por cento é homossexual. Da análise dos dados concluiu-se que os sujeitos têm entre 18 e 28 anos, com baixo índice de escolaridade, situação ilegal e inexperientes, o que sugere que não tinham a mesma actividade no Brasil. A maioria actua em saunas gays ou pela internet. Segundo a antropóloga que coordenou o estudo:
A grande maioria decide permanecer nesse setor por dinheiro. Ao contrário das mulheres, que muitas vezes chegam enganadas e pressionadas por máfias, os homens sabem onde estão e exercem por vontade própria.

Jorge Del Romero, médico, membro da equipa de investigação, afirma que “um dos objetivos dessa pesquisa é atuar na prevenção, porque há um problema grave que está aumentando. Entre as mulheres, o índice de contágio é de apenas 1%.

Daqui se conclui que há tipologias de trabalho características à população brasileira emigrante das quais as actividades ligadas ao sexo possuem particular destaque, não só em Portugal como nos demais países para onde estes emigram. A Suiça, por exemplo, é um dos países que recebe emigrantes brasileiros homossexuais e travestis, que actuam por temporadas. Isto não é só sinónimo das dificuldades económicas e sociais de origem, bem como os entraves recorrentes da baixa escolaridade e da situação de emigração ilegal, como ainda é sintomático da procura de trabalho de elevado rendimento e menor esforço. A prostituição continua a ser um caminho fácil. Sob pena de propagação do vírus da SIDA e da não dignificação de uma população de origem.