Archive for Novembro, 2007

EDUCAÇÃO DO UMBIGO: Segundo a psicóloga brasileira, Rosely Sayão, aos jovens de hoje faltam-lhes referências de crescimento, uma vez que os pais tendem a adequar-se aos jovens, de forma a compreendê-los e acompanhá-los, e neste sentido tornam-se em colegas dos filhos. Segundo a mesma: “Os jovens permanecem jovens porque o mundo é dos jovens e porque eles olham para os adultos e percebem que os adultos estão voltando. Então, para que ir?”.

Por outro lado, Rosely Sayão apresenta uma moralidade sexual no mínimo desadequada com a sua profissão. A psicóloga defende que os pais devem desencorajar os filhos a contar sobre a vida sexual. Para ela, fazê-lo sem constrangimento algum é sinal de uma incapacidade de diferenciar a vida íntima da social. No entanto, embora haja uma necessidade de não tomar os pais por amigos da mesma idade, isto é, embora seja fundamental que os pais não assumam um papel de membros do grupo de pertença dos filhos, não vejo vantagens em que se criem barreiras totais entre os pais e os filhos. A confiança e o acompanhamento continuam a ser fundamentais na educação sexual e na prevenção das DST’s.

Como justificação, Rosely Sayão, afirma que esta cumplicidade familiar leva a que os jovens não procurem a sua autonomia, e que antes cresçam sob a confiança de que um adulto assumirá sempre a responsabilidade dos seus actos. Nas palavras da psicóloga, “Nós, que não queríamos ser pais tiranos, construímos filhos tiranos”.

NEGÓCIOS DA CHINA: A 10ª Cimeira entre a União Europeia e a China, embora qualificada pelo Primeiro-Ministro Português e Presidente do Conselho, José Sócrates e pelo Presidente da Comissão Europeia, Durão Barroso, de “sucesso”, satisfez mais os interesses chineses do que os da União Europeia. Afinal, como vem sendo tradicional. Este “sucesso” de que falam Sócrates e Barroso, é na verdade um sucesso mascarado pelos cocktails e conversa fiada. É como se«de derrota em derrota se chegasse à vitória final», um pensamento que relembra os velhos tempos do MRPP.

A União Europeia fez a vontade à China e condenou explicitamente o referendo em Taiwan sobre a adesão às Nações Unidas, conseguindo em troca apenas um grupo de estudos de alto nível para estudar o problema do défice comercial. Isto faz-me lembrar o sketch do «Gato Fedorento» sobre a constituição de comités para “análise de situações”.

A bem dizer das coisas, o mais importante continua por ser explorado (sob proveito chinês): a impusição de soluções para a abertura do mercado chinês aos produtos europeus, bem como a criação de mecanismos de valorização mais ambiciosos do remimbi face ao euro. O mercado chinês continua florescente, ao mesmo tempo que a indústria europeia se vê forçada a fechar as suas portas. A balança comercial europeia está profundamente deficitária no que concerne à relação exportação/importação, tudo em nome de uma paz com a China.

Barroso, Sócratea e Wen Jiabao chegaram a acordo em relação a quatro pontos: “Continuar a colaborar em conjunto em todas as áreas do domínio da paz e da segurança no mundo; reconhecer o controlo das alterações climáticas como uma prioridade mundial; cooperar no continente africano e coordenar mecanismos de cooperação; olhar de frente para o défice comercial”, segundo palavras do próprio José Sócrates. “Reconhecer o controlo das alterações climáticas como uma prioridade mundial” é uma expressão interessante, como se fosse necessária toda uma análise histórica e filosófica para que se chegue a um reconhecimento da ameaça climatérica. Esta já cansa, já toda a gente reconheceu a ameça, é hora de passarem aos actos. Estratégias e não reconhecimento é o que se impõe. “Cooperar no continente africano e coordenar mecanismos de cooperação”. Outra. Cooperar em África tornou-se sinónimo, para a China, de exploração capitalista. Em África nunca foram as pessoas a prioridade, nem seriam agora.

Há qualquer coisa nestas Cimeiras que cheira sempre a déjà vu. Não vos parece?

REVOLUÇÃO CASA PIA: Passaram-se cinco anos desde o começo do mega-processo «Casa Pia de Lisboa». Hoje a instituição tem menos alunos e os lares são mais pequenos, mas apesar disso as críticas continuam e há novos casos de abusos sexuais a viram à tona. Ainda assim, o processo contribuiu de forma difinitiva para uma viragem na consciência social em torno do abuso sexual de menores. O tabu e o medo começaram — lentamente — a ficar para trás e as denúncias começaram a surgir. Segundo o jornal «Público», o abuso sexual de menores motiva, anualmente, 1400 denúncias, o triplo do número registado em 2002, antes do início do processo. É um registo significativo tendo em conta que a maioria dos abusos ocorrem em contextos familiares ou de vizinhança. A mudança instituída no Código Penal, que torna os crimes sexuais em crimes públicos, vai tornar mais fácil a investigação e a actuação criminal, uma vez que deixa de ser necessária a existência de denúncia ou queixa para que se avançe com apuramento da veracidade. Isto é fundamental.

DA TOLERÂNCIA: Fernanda Câncio, no semi-blogue «5 Dias», escreve assim:

[© stop racism by Han Soete]

É, sem dúvida, um artigo extremamente interessante, este, e que recomendo vivamente. Fernanda Câncio coloca-nos no olhar de uma criança de sete anos (ela própria) ao lidar com a diferença racial. Não só percebemos que o preconceito racial é uma herança cultural, como entendemos que a educação anti-racista não deixa de constituir um comportamento de diferenciação étnica. É óbvio que esta diferenciação não tem uma carga ideológica adjacente. Aliás, todo o ser humano tem consciência de si mesmo através do outro, daquilo que lhe assemelha e daquilo que os diferencia. O que é sinónimo de valorização étnica é aquilo que Fernanda Câncio descreve como: “… que permitiu até a uma criança colocar-se no lugar de superioridade que diz “eu aceito-te, vês?”. Essa superioridade à priori que se tornou intrínseca do ser humano, é que condiciona as relações raciais. O “eu aceito-te” ou “eu tolero todas as raças”, isto é, a tolerância racial (religiosa, etc.) são posições de auto-confiança e auto-afirmação. São posturas que denotam uma certeza de ser dono da verdade e que por isso mesmo se tolera aqueles que a desconhecem, aqueles que são menores. Isto sim, é a mentira social.

CONFERÊNCIA NACIONAL DO PCP: O Partido Comunista Português (PCP), terminou ontem os seus trabalhos no âmbito da Conferência Nacional do partido, depois de um “longo período de preparação com a realização de um vasto e diversificado programa de reuniões, debates sectoriais e regionais de análise da realidade socio-económica do país, das regiões e dos mais importantes sectores de actividade da vida nacional”. Da ordem de trabalhos foram subtraídos sete objectivos fundamentais para o país:

Em primeiro lugar o objectivo do aumento do bem-estar e da qualidade de vida das populações e em segundo a redução das desigualdades sociais. Dois objectivos a realizar através de uma justa repartição da riqueza, da revalorização salarial e da melhoria dos rendimentos, de uma adequada política fiscal e de segurança social e da elevação da qualidade dos serviços públicos em todo o território nacional.
O pleno emprego e a melhoria da sua qualidade como o primeiro e prioritário objectivo das políticas económicas.
O crescimento económico, através da intensificação e significativo crescimento do investimento público, da ampliação do mercado interno e do aumento da produtividade e da competitividade.
A defesa e valorização do aparelho produtivo nacional, afirmando-o como motor da economia nacional.
A coesão económica e social com um decisivo combate às assimetrias regionais e à desertificação do mundo rural.
O desenvolvimento e defesa de um sistema de ensino e uma política cultural que não subordinados e a reboque dos interesses imediatos do capital, mas virados para formação integral dos portugueses e do seu património cultural

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|||QUAL VAI SER A DESCULPA? Depois de sorteados os grupos de qualificação para o Mundial 2010, e a Portugal ter calhado um grupo à partida facilitado, com a Dinamarca, Suécia, Hungria, Malta e Albânia. Certamente Scolari irá exacerbar o valor dos dinamarqueses e suecos e afirmará que o grupo é complicado. Ou seja, fará tudo para que os adversários pareçam Golias, irá multiplicar as preocupações, de maneira a que conquistando o apuramento, mais uma vez fique como obreiro de uma grande tarefa. Quando na verdade estará a cumprir os mínimos exigíveis.

|||GERAÇÃO RASCA: Será que existe uma geração rasca ou antes todas as gerações são rascas em relação às gerações anteriores? A geração dos anos 90 foi apelidada de «geração rasca», muito graças à sua ausência de ideais e assim apatia social, quando comparada com as gerações de 60, 70 e 80. Mas a verdade é que também aquelas foram «gerações rascas», na medida em que souberam romper com as normas sociais, com o status quo, que se insurgiram contra o “classicismo” social, renovaram e recriaram valores, e assim entraram em confronto com a geração dos seus pais. Ou seja, foram rascas para as gerações anteriores. Mas foram rascas renovadoras e activas, conscientes da realidade local, nacional e internacional, procuraram destabilizar a norma e promover novas atitudes sociais: anti-racistas, pela paz universal, contra a pobreza no mundo, activistas dos direitos humanos, preocupadas com a fome em África, descontentes com os governos que restringem as liberdades individuais. As gerações seguintes nasceram com tudo definido, sem muros ideológicos, sem necessidade de romper com com correntes sociais, sem desafios e sem ideais. É uma juventude que não se ergue.

|||AH, A CIVILIZAÇÃO! Ouvi dizer que o Brasil, e por extensão a América Latina, são uma civilização em expansão, uma modernidade alternativa e o futuro, uma resposta contra a cultura e civilização ocidentais. Foram sem dúvida palavras inflamadas, um discurso ideológico muito interessante e um projecto necessário para a América Latina. No entanto, nós que olhamos o Brasil com atenção vemos que esta ideia é tão real quanto o lema «ordem e progresso». Infelizmente, claro está.

E para quem tem dúvidas quanto a isso a notícia avançada pela «Folha de São Paulo» e hoje noticiada pelo «Público» mostra bem o estado de desorganização e desrespeito pelo valor da vida humana: uma jovem com idade a rondar os quinze anos foi detida e levada para a delegacia de Abaetetuba, na região metropolitana de Belém, Estado do Pará, depois de ter sido apanhada a roubar. A jovem ficou detida durante um longo mês, período durante o qual foi repetidamente violada pelos seus companheiros de cela, entre 20 a 30 homens. A Justiça do Pará tinha sido informada de que havia uma mulher numa cela com 20 homens, mas não agiu. A governadora do estado do Pará, Ana Júlia Carepa, citada pela BBC, prometeu um inquérito completo ao caso e disse que ficou chocada quando soube da notícia. Pois. O ficar chocado tem sido um comportamento típico dos governos desorganizados e desinformados, como os da América Latina. E é esta, então, a civilização moderna?