Archive for Outubro, 2007

AS CHÁVEZ DO PODER. O dia 30 de Outubro marca a data do início de uma nova fase na vida política venezuelana. Mesmo os mais condescendentes com o governo de Hugo Chávez têm de admitir que a reforma constitucional em marcha pode colocar a frágil democracia venezuelana em causa. O projecto já passou em três votações no Parlamento e prepara-se para ser apresentado ao Conselho Eleitoral. Entre as mudanças incluídas no texto da reforma estão o fim da autonomia do Banco Central, o aumento do mandato presidencial para 7 anos e o fim do limite para as reeleições - o que dará a Chávez a possibilidade de perpetuar-se no poder. Não fosse isso mesmo que Chávez quer — as chaves do poder.

A PAZ É UMA CRIANÇA. Segundo o JN o governo de Myanmar (ex-Birmânia) está a recrutar crianças para servirem nas fileiras do exército. As idades rondam os dez anos e compreendem ambos os sexos, avança a Human Rights Watch num relatório intitulado «Vendidos para serem soldados». No mesmo relatório “Os generais do governo toleram o recrutamento de crianças e não punem aqueles que o executam” adiantando que “Algumas crianças são agredidas até que aceitem”. Apesar de um relatório da ONU, apresentado no passado dia 17 de Outubro, considerar que a existência de crianças-soldado é uma dura realidade no mundo actual, a situação política de Myanmar continua a não representar uma ameaça real internacional. Ban Ki-moon, Secretário-Geral da ONU, afirmou no discurso inaugural de Assembleia do Conselho das Nações Unidos, no passado dia 26 de Setembro, que “o tempo de impunidade acabou”. Apesar de censurada, a repressão continua a fazer parte do regime militar que se instaurou em Myanmar.

::as crianças-soldado são arrancadas da sua infância::


Estima-se que existam 300 mil crianças-soldado em todo o mundo repartidas entre tropas governamentais e grupos guerrilheiros. Na Serra Leoa, durante o período da Guerra Civil, em 1990, cerca de 15 mil crianças estiveram nos campos de batalha. Segundo
dados do Alto Comissariado da ONU para Refugiados mais de 2 milhões de crianças terão morrido em confrontos militares na última década, aos quais se juntam 6 milhões de feridos e/ou mutilados e 1 milhão de órfãos. Em 87 países convivem crianças e 60 milhões de minas terrestres mutilam anualmente 10 mil crianças. São números perfeitamente assombrosos. Se lhes juntarmos os traumas psicológicos, desenraizamento e ainda total ausência de esperança de futuro, temos milhões de crianças vítimas de interesses económicos e de governos tiranos.

Ao mesmo tempo, é importante reflectirmos sobre esta dura realidade no contexto de paz universal. A ameaça internacional tem-se consubstanciado no terrorismo e no conceito de segurança interna. Só é ameaça aquilo que possa afectar a segurança dos Estados mais potentes em termos económicos e civilizacionais. A percentagem do valor de vida humana varia ao sabor da capacidade dessas vidas geraram lucros. Neste sentido a existência de crianças-soldado, embora reconhecido como flagelo não representa um problema de topo hierárquico. As prioridades medem-se em valor financeiros e vantagens que compensem os gastos. O infanticídio não é ainda uma prioridade porque afinal nesses países crianças há muitas.


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A DÍVIDA INTERNA. Mesmo a propósito do que escrevi aqui, o jornal Público na sua edição online alerta para o aumento do número de pessoas sobreendividadas a pedirem ajudam, por exemplo, à DECO, no dia em que se assinala o Dia Mundial da Poupança. Criar “hábitos de gestão e de poupança”, como pretende a Secretaria de Estado de Defesa do Consumidor, não é tarefa fácil, afinal o português criou níveis de conforto e luxo exterior que não são suportados pela Economia nacional.

[Tags: economia, endividamento público]

RANKING DE ESCOLAS. Resolvi consultar o ranking das melhores escolas secundárias em 2007 e comparar com o ranking de 2004. Não tinha qualquer objectivo de análise profunda, basicamente queria saber como estava o Externato Marista de Lisboa já que foi a minha segunda casa durante 12 anos. Num espaço de três anos caiu dois lugares — de 12º para 14º lugar — mas recuando uns anos lembro-me de estarmos nos três primeiros lugares. Não é uma quebra significativa mas é importante. Uma quebra é sempre uma quebra. Mais significativa é a subida de 4º para 1º do colégio S. João de Brito.

Basicamente no que concerne ao EML a rigídez tem decaído, há cada vez mais alunos indisciplinados — filhos de novos ricos –, ao mesmo tempo que os professores mais antigos da casa vão sendo substituídos por professores mais novos. Cada vez que faço uma visita àquelas instalações conheço (e sou reconhecido) um número menor de pessoas. Não é bom.

[tags: ranking escolas secundárias]

||| MEDICINA MEDIEVAL. Bento XVI continua a sua cruzada contra a modernização e o progresso social. O Papa da restauração do fundamentalismo católico apelou ontem aos farmacêuticos católicos italianos a recorrerem à figura da objecção de consciência para não administrarem medicamentos destinados à interrupção voluntária da gravidez ou à eutanásia. Mais uma vez a Igreja a querer colocar-se acima da Lei. Laicidade por onde andas?

[tags: Igreja, Bento XVI, fundamentalismo, eutanásia, IVG]

||| Rádio Kontrastes | semana 6

::Rádio Kontrastes::
Para esta semana a Rádio Kontrastes traz o intemporal sucesso Hotel California dos Eagles. Os The Eagles foram uma das mais famosas bandas de Country Rock tendo estando nos tops americanos entre 1972 e 76 e vendido 120 milhões de álbuns em todo o mundo. A música Hotel California faz parte do álbum com o mesmo nome, álbum esse que levou oito meses a ser gravado.

::nota:: a música anterior, Kiss From a Rose de Seal foi tocada 522 vezes. Fantástico.

MOVIMENTO OPERÁRIO. Conceito que designa os movimentos globais de carácter reivindicativo — através da criação de associações, sindicatos e partidos políticos operários, manifestações e greves — iniciados no princípio do século XIX, como forma de reacção às duras condições de trabalho: baixos salários, horas de trabalho excessivas, péssimas ou nenhumas condições de segurança e higiene, etc.

::ligação:: hoje também no «Registo Provisório».

JOÃO PEREIRA COUTINHO. Tenho andado pela «Cidade Digital», entre outras coisas, a recuperar textos da «Coluna Infame», o primeiro grande blogue português, assinado por João Pereira Coutinho, Pedro Mexia e Pedro Lomba — estes últimos dois reencontram-se no «Gatto Pardo». Ler e reler Coutinho é sem dúvido um exercício extremamente interessante, não só por aquilo que ele escreve mas acima de tudo pela forma como ele o faz. Podemos, sem dúvida não concordar com o seu pensamento conservador e a postura “às direitas”, no entanto, não podemos escrever ou dizer que JPC não articula as palavras com mestria.

João Pereira Coutinho nasceu no Porto. Estudou História na Faculdade de Letras da Universidade daquela cidade e fez uma pós-graduação em Ciência Política na Universidade Católica. É precisamente nessa área, na ciência política, que Coutinho tem se revelado esfíngico e com a qual conquistou a imprensa brasileira — tradicionalmente de direita. Podemos continuar a ler a sua formalidade estética e a sua visão vincada no seu sítio digital, no entanto, o que mais cativa em João Pereira Coutinho é a dança das letras na leitura.

PERDA DE TEMPO. O caso Madeleine McCann continua a sua viagem para a órbita do surrealismo. Desde a procura desenfreada por Maddie até ao aparato dos depoimentos e da constituição dos pais como arguidos, este processo já viu de tudo. É óbvio que este CSI de segunda tem de encontrar um rumo e chegar a alguma linha orientadora. Quer-me parecer que a PJ tem algum pudor diplomático em formular uma teoria e levá-la até ao fim. Sob esse pudor diplomático vai alimentando a imprensa ao mesmo tempo que nos faz perder tempo. Com base numa descrição feita por Jane Tanner, amiga do casal McCann, foi feito um esboço divulgado hoje pela imprensa britânica de um alegado raptor. O esboço — aqui ao lado — mostra um homem com idade entre 35 e 40 anos, medindo entre 1,70 e 1,75 metros, cabelo curto e vestindo um blusão ou casaco de cor escura, calças de tecido de cor clara e sapatos pretos. E (!) sem traços faciais que Jane Tanner não foi capaz de vislumbrar. Fantástico. Publica-se um esboço destes como se de um retrato pormenorizado se trata-se. Basta pensar um bocadinho para concluirmos que essa descrição corresponde a metada da população masculina portuguesa e espanhola. Mas estamos perto, muito perdo da verdade. Enfim, mais perda de tempo.

||| Conversas de Café | cappuccino com mais tempo [conversa 136]

O blogue KØNTRÅSTËS 3.0 está a publicar um conjunto de conversas informais mantidas via e-mail com os mais diversos bloggers ©. O objectivo é conhecer um pouco mais do blogger que dá vida ao blogue e abrir uma cortina para o que move cada autor de blogue. O convidado de hoje é Paulo Condinho, 39 anos, Administrador, autor do blogue «Mais Tempo».

1. Sabendo que a blogosfera é uma janela para a vida cibernética, como vê o fenómeno «blogue»? R: Não sei se a blogosfera é uma janela, ou uma porta, ou até uma porta-janela. É uma via, e como tal de dois sentidos. O fenómeno blogue é uma exploração dos outros, um dar a mostrar de nós mesmos. É um contacto, no sentido de Carl Sagan, ou do ET de Spilberg. Estender uma mão ao que ainda não há, mas se sente.

2. Quando acede à blogosfera que tipo de blogues procura? R: Procuro blogs que me surpreendam, que me consolem, que me evadam. Procuro espelhos e poços.

3. O que o levou a criar um blogue? R: Porquê escalar o Evarest, perguntaram a Hilary; porque ele está lá.

4. Que balanço faz da sua estadia na blogosfera e da blogosfera actual? R: Estou na blogosfera há ano e meio; não conheço outra. Gosto, e pretendo continuar. Pessoalmente, tem sido uma excelente experiência.

5. Acha que os blogues podem substituir a imprensa online? R: Não. Têem vocações diferentes. Assim como o telejornal não substitui o jornal, como o café não é chá. Haverá opções diferentes, sempre, e serão todas válidas, como sempre, e será o mercado a decidir, como sempre.

6. Em que medida os blogues influenciam ou influenciaram a sua vida e/ou actividade profissional? R: Remetendo acima, pessoalmente, abriram-me portas, janelas, poços e espelhos. Profissionalmente, agilizaram-me a escrita. A disciplina quotidiana de escrever, ainda que só umas linhas, é óptima.

7. O que faz um bom blogue? R: Um bom bloguer.